ainda a felicidade

Depois foi a Fundação Getúlio Vargas quem disse que a felicidade pode, e deve, ser usada como índice do sucesso de um país e de seu povo. A instituição, dedicada a ensinar e pesquisar a administração pública e privada, decidiu trazer do Butão a ideia de um índice inspirado no Produto Interno Bruto, só que sem compra, venda, inflação, custo ou juros, mês, trimestre, ano, taxas ou cadeia de produção.

No pequeno reino quase do tamanho do Espírito Santo, encravado entre a China e a Índia, a satisfação tem medida e tamanho, um cálculo feito a partir de itens como padrão econômico, educação, saúde, expectativa de vida, acesso à cultura e bem-estar psicológico usado pelo governo para orientar as políticas adotadas no país.

Sorrir é importante, acreditam os butaneses, um povo budista que não se abala nem pelo excesso de frio das cordilheiras do Himalaia nem pelas faltas típicas daquela região, e é curioso que um centro de pesquisas tão voltado a políticas e números goste da ideia e passe adiante. Para a FGV, a riqueza de um país pode passar a ser medida, também, pelo quanto de alegrias seus habitantes têm.

Uma sociedade feliz é aquela em que todos têm acesso aos serviços básicos de saúde, educação, previdência, arte e lazer, diz, coberto de razão, um dos professores envolvidos na criação do índice de Felicidade Interna Bruta à brasileira. O caminho, ele admite, é longo, e envolve entender as diferenças de um país tão grande quanto o Brasil, superar preconceitos, medir coisas de difícil medida, os afetos, o medo do futuro ou então a satisfação com a vida, de quando levantar fica fácil, andar parece mais leve, a energia sobra, entender é moleza.

[Às vezes é o contrário, e a saída é rezar a reza sincera e funda de quando não há mais lógica, razão, bom senso ou diálogo, Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários, serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça amém].

Uma sociedade feliz é, ainda, aquela feita de boas amizades, dias e noites seguros, espaços para a prática de esportes, comunicação eficiente, política justa, ética reta, finança equilibrada, práticas lucrativas tanto para a economia quanto para o planeta. O caminho, como se sabe, é longo, e envolve equilibrar os gastos, economizar o tempo, não eleger os desonestos, descartar óleo de cozinha, remédios vencidos e pilhar no lixo certo, entender que o que mais aproxima os seres humanos de um planeta de quase sete bilhões de habitantes é a capacidade de ouvir.

[Às vezes é contrário, e então a gente precisa reaprender a lição dos buldogues franceses, saudar mais a vida que a morte, mais o riso que a doença, mais a dança que as restrições, respirar, sorrir, cuidar, respeitar, uma mão, lealdade, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, em lugares pequenos, com os afetos por perto, bom humor, pensamento solto, a calma do sofá, sabores novos e as tortas que escapam da receita].

Uma sociedade feliz é um pouco como a gente, individualmente. Feitas todas as contas, com comida no prato e sem guerra nas ruas, com boa companhia e distante das injustiças, falta muito pouco para a felicidade, quase nada.

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