as ideias [ou de como elas nascem]

Como nascem as boas ideias? Em que ponto uma invenção abstrata ganha retas e curvas, letras e às vezes um rosto? Quando um pensamento vira plano, proposta, projeto? Até onde uma intenção caminha antes de saber se avança ou morre, para nunca mais? As más ideias, ao contrário, surgem de onde? Em que mês, em que endereço, céu nublado ou lua cheia, diante da carne dura do almoço ou depois de uma noite mal dormida, num diálogo no corredor ou num encontro que não devia?

Em que parte do corpo surgem as modas, no cérebro, no coração ou em outra ainda? Quais músculos trabalham para fazer concreto das imaginações? Como rabiscos, frases, notas, desejos, propósitos, sonhos e intenções se tornam desenho, texto, música, construção, realidade? Como, ao contrário, o desânimo ganha a parada e a gente, então, desiste, deixa pra lá, fecha a porta, larga o osso, encerra o expediente, diz não sem voltar atrás, exatamente como naquela história [lembra?], de quando como onde por que a gente descobre, simplesmente, que não pode mais?

Ideias nascem de qualquer lugar, de uma conversa regada a margaritas, durante as insônias, enquanto a gente cozinha, diante dos discos à espera da escolha, das compras à espera de organização ou da gramática à espera de consulta. Do mesmo modo elas morrem, quando a gente menos espera ou então quando, enfim, consegue virar a página que precisa ser virada, recomeçar, de outro jeito, com outro espírito, como se fosse o ano novo, só que em setembro.

Nascem da música, da poesia ou da ciência, a útil e a nem tanto, Elis, Bandeira ou a pesquisa da doutora Vicky Williamson sobre a síndrome da canção empacada, estudo [verdade] a respeito dos refrões grudentos e da possível cura contra eles nas palavras-cruzadas ou na corrida. Do mesmo jeito elas morrem, no fundo do poço ou então quanto a gente consegue, enfim, entender que já era.

Ideias nascem no bar, na sala ou numa revista, mesa, sofá ou a reportagem sobre o lado bom da malandragem, ginga, balanço, malemolência e a capacidade, tipicamente brasileira, de passar pela quina da mesa com a sabedoria que existe no corpo e o jeitinho que corre no sangue. Do mesmo jeito elas morrem, diante de McFlurry Bis [delícia] ou quando, depois de uma novela malsucedida, a gente enfim decide deixar pra lá.

Faz parte.

Tem gente que pensa melhor em grupo, algum barulho, certo atropelo e as regras do capítulo 33 sobre uma dezena de publicitários que se reunia por 90 minutos e saía da sala com 87 novas ideias.

[O nome da coisa é brainstorming].

Tem gente que é justo o oposto, prefere o silêncio e a solidão para criar, imaginar, decidir, arquitetar e o que mais for preciso, timidamente. De um jeito ou de outro, invenção abstrata, pensamento, intenção, moda e imaginação movimentam o mundo ou coisa menor, um jantar, este texto ou aquele; ocupam ausências, transformam vazio em cheio, trazem sentido aos dias difíceis ou ajudam, apenas, a gastar o tempo quando é preciso que seja assim.

De um jeito ou de outro, também, em grupo, barulho e atropelo ou em silêncio, timidamente, as más ideias brotam, uma cobrança impertinente, uma comparação desnecessária, um pensamento torto, a teimosia, a cegueira, o apego, o ciúme, e a gente então precisa espantá-las, com conversa e margaritas, na cozinha ou diante das compras à espera de organização. A gente precisa espantá-las com música, poesia ou ciência, com ginga, balanço e McFlurry Bis, como no capítulo 33 ou sozinho, simplesmente.

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