felicidade interna bruta

A ideia vem de longe, de um reino quase do tamanho do Espírito Santo, encravado entre a China e a Índia, 600 mil habitantes, Terra do Dragão na língua local, inverno fresco e verão quente nos vales centrais, inverno severo e verão fresco nas montanhas do Himalaia, fome zero, analfabetismo baixo, raros registros de violência e uma alegria coletiva que não se abala nem pelo frio nem pelas faltas.

No Butão, felicidade é coisa séria, muito séria, seriíssima.

Ali, entre o budismo e as florestas que inspiram a contemplação, entre casas de 900 anos e as memórias que elas guardam, entre prédios de madeira e taipa e a prática do arco e flecha, existe um cálculo inspirado no Produto Interno Bruto só que sem compra, venda, inflação, custo ou juros, mês, trimestre, ano, taxas ou cadeia de produção: a Felicidade Interna Bruta – FIB é a sigla em português; Gross National Happiness, o nome original, ou GNH, apenas.

Criado pelo rei Jigme Singye Wangchuk em 1972 para medir o grau de satisfação dos butaneses com a vida, o índice mapeia ações e hábitos com consequências positivas e orienta as políticas públicas adotadas no país. Para eles, pela lei dos homens e de Buda, o governo tem por obrigação proporcionar as condições necessárias para que seu povo esteja concentrado prioritariamente na busca da felicidade.

São nove os itens medidos pelo índice de Felicidade Interna Bruta: padrão econômico, educação, saúde, expectativa de vida e atividade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, bons critérios de governança, gerenciamento equilibrado do tempo e bem-estar psicológico. A partir de questionários cheios de detalhes pacientemente respondidos pelos butaneses, que nasceram e cresceram sem a pressa destes nossos dias, o governo determina quantas escolas, quais centros de lazer, como programas e em que iniciativas vai investir as verbas públicas – e, segundo consta, investe de fato.

O dinheiro é igualmente importante, eles dizem, desde que a conquista da riqueza material não atrapalhe a cabeça, o corpo, o espírito e o meio ambiente. Seis horas de trabalho, na opinião das autoridades butanesas, seriam suficientes para manter ativa a economia do país sem prejudicar as horas de sono, os encontros com os amigos, a convivência com a família, a prática de exercícios físicos ou o bom funcionamento da natureza.

Deste modo, sugerem ao resto do mundo, é preciso atualizar constantemente as respostas a respeito das razões que nos fazem levantar da cama com disposição, sorrir, pedalar, cozinhar, sorrir um pouco mais, tirar o franzido da testa, equilibrar trabalho e diversão, entender os interesses da comunidade e as vontades do vizinho, além das nossas.

É preciso atualizar constantemente também as perguntas e, diante das respostas, sorrir o riso escancarado dos dias de sol, os acordes maiores do velho piano do quarto, a alegria incontida dos discos da caixa de madeira, no sé dónde acomodarte, no sé de qué color pintarte, lo quiero hacer es salir a bailar un poco. É preciso, ainda, entender quanto de alegria, satisfação, bondade e sinceridade há em cada passo, projeto, decisão, vontade. É preciso, por fim, saber do peso das respostas do questionário, mesmo que imaginário, que orienta a vida sua, a minha, a de todos nós. Ou pelo menos devia.

as ideias [ou de como elas nascem]

Como nascem as boas ideias? Em que ponto uma invenção abstrata ganha retas e curvas, letras e às vezes um rosto? Quando um pensamento vira plano, proposta, projeto? Até onde uma intenção caminha antes de saber se avança ou morre, para nunca mais? As más ideias, ao contrário, surgem de onde? Em que mês, em que endereço, céu nublado ou lua cheia, diante da carne dura do almoço ou depois de uma noite mal dormida, num diálogo no corredor ou num encontro que não devia?

Em que parte do corpo surgem as modas, no cérebro, no coração ou em outra ainda? Quais músculos trabalham para fazer concreto das imaginações? Como rabiscos, frases, notas, desejos, propósitos, sonhos e intenções se tornam desenho, texto, música, construção, realidade? Como, ao contrário, o desânimo ganha a parada e a gente, então, desiste, deixa pra lá, fecha a porta, larga o osso, encerra o expediente, diz não sem voltar atrás, exatamente como naquela história [lembra?], de quando como onde por que a gente descobre, simplesmente, que não pode mais?

Ideias nascem de qualquer lugar, de uma conversa regada a margaritas, durante as insônias, enquanto a gente cozinha, diante dos discos à espera da escolha, das compras à espera de organização ou da gramática à espera de consulta. Do mesmo modo elas morrem, quando a gente menos espera ou então quando, enfim, consegue virar a página que precisa ser virada, recomeçar, de outro jeito, com outro espírito, como se fosse o ano novo, só que em setembro.

Nascem da música, da poesia ou da ciência, a útil e a nem tanto, Elis, Bandeira ou a pesquisa da doutora Vicky Williamson sobre a síndrome da canção empacada, estudo [verdade] a respeito dos refrões grudentos e da possível cura contra eles nas palavras-cruzadas ou na corrida. Do mesmo jeito elas morrem, no fundo do poço ou então quanto a gente consegue, enfim, entender que já era.

Ideias nascem no bar, na sala ou numa revista, mesa, sofá ou a reportagem sobre o lado bom da malandragem, ginga, balanço, malemolência e a capacidade, tipicamente brasileira, de passar pela quina da mesa com a sabedoria que existe no corpo e o jeitinho que corre no sangue. Do mesmo jeito elas morrem, diante de McFlurry Bis [delícia] ou quando, depois de uma novela malsucedida, a gente enfim decide deixar pra lá.

Faz parte.

Tem gente que pensa melhor em grupo, algum barulho, certo atropelo e as regras do capítulo 33 sobre uma dezena de publicitários que se reunia por 90 minutos e saía da sala com 87 novas ideias.

[O nome da coisa é brainstorming].

Tem gente que é justo o oposto, prefere o silêncio e a solidão para criar, imaginar, decidir, arquitetar e o que mais for preciso, timidamente. De um jeito ou de outro, invenção abstrata, pensamento, intenção, moda e imaginação movimentam o mundo ou coisa menor, um jantar, este texto ou aquele; ocupam ausências, transformam vazio em cheio, trazem sentido aos dias difíceis ou ajudam, apenas, a gastar o tempo quando é preciso que seja assim.

De um jeito ou de outro, também, em grupo, barulho e atropelo ou em silêncio, timidamente, as más ideias brotam, uma cobrança impertinente, uma comparação desnecessária, um pensamento torto, a teimosia, a cegueira, o apego, o ciúme, e a gente então precisa espantá-las, com conversa e margaritas, na cozinha ou diante das compras à espera de organização. A gente precisa espantá-las com música, poesia ou ciência, com ginga, balanço e McFlurry Bis, como no capítulo 33 ou sozinho, simplesmente.