carta aberta (2) a amy winehouse

Querida Amy,

Passei a noite ouvindo seu disco póstumo. Fazia aquele calor abafado de quando a força da chuva prepara seu próximo estrago [a situação por aqui não anda nada boa, viu?, desabrigados, deslizamentos, enchentes, uma cidade toda embaixo da água, a mãe obrigada a escolher qual dos filhos salvar diante da casa submersa, porque eram três crianças e só havia dois braços…].  Estávamos já em 2012 e, apesar do anunciado e garantido, o mundo continuava como sempre, mais ou menos firme e mais ou menos forte.

Quando a primeira canção do disco começou a tocar, pensei nos que se foram igualmente cedo como você, e nos que ao contrário chegaram daquele modo bom: dança dos dias felizes e às vezes madrugadas, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.

Embalada pela sua música, parei diante do que defendia o cronista na página 78 da revista, a respeito de muitos de nós vivermos angustiados pela percepção de que os outros, todos, absolutamente todos, vivem felizes e bem resolvidos enquanto a gente nem sempre e nem tanto. A verdade, ele diz e acho que você concordaria, é que nenhum de nós vive feliz e bem resolvido o tempo inteiro, inclusive aqueles que fazem questão de aparentar sucesso e felicidade em período integral.

Precisamos de ajuda, ele escreve, Amy, porque não sabemos morrer [você cantou que morreu uma centena de vezes, não?], porque não sabemos lidar com a morte dos outros, não sabemos nos concentrar, relaxar, sustentar relações positivas ou superar hábitos destrutivos. Segundo o escritor da página 78 da revista, não sabemos direito sequer como aprender.

[Taí um dos verbos mais bonitos do mundo, pelo menos do meu: transitivo, regular, aprendendo no gerúndio, aprendido no particípio, aprender no infinitivo, compreender algo ou alguém pela técnica ou pela sensibilidade, pela repetição ou pela experiência, pelo exemplo acertado ou justo o oposto].

Quando a quarta canção começou a tocar, e diante do calor abafado de quando a chuva prepara seu próximo estrago, do anunciado e garantido, das chegadas e do escritor da página 78, lembrei da primeira carta aberta que te escrevi, Amy, dois ou três anos atrás. Você já havia dito que o amor era um jogo perdido, que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto era difícil colocar as coisas em ordem com a voz dele na sua cabeça. Em mais de uma ocasião, havia debochado da sua estupidez, confessado seus vícios e as horas em que chorou pelos amores frustrados no chão da cozinha.

[Acontece, Amy].

Quando a décima primeira canção começou a tocar, pensei na vida breve que você teve e na imensa herança que deixou com sua música. Pensei naquela segunda-feira de janeiro, o palco, a plateia, a pizza, o Rio de Janeiro, as boas companhias e as alegrias do regresso. Pensei no tanto que veio depois, e de repente era já a décima segunda, a última, sobre lugares, o tempo, indelicadezas, segredos preciosos e a estrofe final que, a esta altura, Amy, soa assustadoramente profética:

– Quando minha vida acabar, lembre-se de quando estávamos juntos. Estávamos sozinhos e eu estava cantando essa canção para você.

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2 comentários sobre “carta aberta (2) a amy winehouse

  1. Querida Ana,
    Seu coração senti e trabalha, junto com sua inteligência ímpar!
    Beijo carinhoso.
    Seja o seu dois mil e doze melhor que todos os anteriores…..

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