de vivos e de mortos

Me contam que no México o Dia de Finados é um dia de festa. O cardápio cuidadosamente preparado inclui doce de abóbora com canela, uma torta chamada por eles de pan de muertos e pequenas caveiras de açúcar ou chocolate decoradas com lantejoulas e marcadas com o nome dos membros falecidos de cada família. Nos povoados pequenos, os moradores cantam e dançam pelas ruas para celebrar, com todo respeito, filhos, irmãos, maridos, pais, mães e amigos que já partiram. Nas cidades, passam o feriado no cemitério, enfeitando os túmulos, bebendo em homenagem a seus muertitos e cantando as canções favoritas deles.

Os mortos, por sua vez, têm licença para visitar o mundo de cá e estar com seus queridos na passagem da data. Para recebê-los, me contam, as casas são enfeitadas com velas que ajudam os espíritos a encontrarem seu lugar, altares decorados com papel picado nas cores preta [símbolo do luto cristão] e laranja [o tom do luto azteca] e uma flor amarela chamada cempasúchitl, espécie que, segundo povos indígenas, facilita o diálogo com os deuses.

[Amém].

A explicação, sem morbidez ou mau gosto, faz sentido, como também parece fazer sentido o ritual dos primeiros dias de novembro nas terras cortadas pela Sierra Madre: comer, beber, colorir, celebrar, receber, dançar, iluminar e cantar as canções favoritas em homenagem aos que já partiram. Porque a morte, eles defendem, é um fenômeno inseparável da vida e portanto a melhor forma de enfrentá-la é rir e brincar com ela. Chorar também pode, mas de outro tipo de dor, saudade talvez, o vazio que fica ou então vontade de partilhar um pouco de calabaza de tacha [parece bom] ou uma história não contada.

Penso então nos que já se foram, por vontades que a gente não entende, por enfermidades que a Medicina não vence, por fatalidades que vai saber. Penso neles e na lição gingada do mestre Jorge Ben, sobre a vida ser bela desde que a gente saiba brincar e mexer com ela, e quando você para o coração ao invés de bater padece.

Penso nas partidas anunciadas e na outra lição, coisa séria ou semi, segundo a qual uma revolução que não serve para dançar e rir não é uma boa revolução. Penso nas idas em que não dá tempo de se acostumar à falta nem de ensaiar viver de outro jeito. Penso nas vezes em que não dá tempo nem de dizer adeus. Penso igualmente na saudade, na vontade de partilhar um pedaço do doce ou uma história não contada.

Penso que a vida nem sempre é justa e de fato, apesar da originalidade dos mexicanos, não é simples entender as perdas como me contam que eles entendem, com leveza, com festa, com as canções preferidas dos que se foram, Sarah Vaughan cantando os Beatles, as rainhas do rádio cantando o amor ou os dois parceiros cantando a atriz que chora num quarto de hotel.

[Para sempre é sempre por um triz].

Penso então em como a gente devia, mais que tudo, saudar os que estão vivos, um sorriso, uma conversa, respeito, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, para que, quando partirem, seja fácil comer, beber, colorir, receber, dançar, iluminar e cantar em homenagem a eles. Chorar também pode, mas de outro tipo de dor, conforto talvez, de saber que fez o melhor possível enquanto era tempo, e aí resta apenas celebrar.

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