começar de novo

Entender verdadeiramente o que dizia aquela canção fazia parte do tratamento. Era, àquela altura em que as coisas estavam, melhor que xarope, melhor que comprimido, melhor que injeção, melhor que as técnicas de Sigmund Freud, Ernest Jones ou Wilhelm Reich, melhor que as ervas, os chás e o álcool, melhor que duas doses por dia de isometepteno, dipirona e cafeína para a testa, 20 miligramas de Omeprazol para o estômago e Gelol para o cotovelo.
 
Era, àquela altura em que as coisas estavam, o melhor dos remédios, a melhor das terapias.

“Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido”

Fazia algum tempo já que as conversas que ela tinha giravam em torno de um amor malsucedido feito mais de expectativas que de fatos, mais de pedidos que de presença, mais de ilusões que de verdades, mais de desacertos que de encantos.

Parecia reprise: dor profunda, ciúme exagerado, perda de peso, apego em excesso, expectativas desfeitas, grandes mentiras e pequenos desvios, pequenas mentiras e grandes desvios, um dia inteiro de trabalho jogado fora [às vezes semanas], o desespero de não entender a mudança, não querer o fim, não aceitar a partida.

Leveza não havia, nem balanço, movimento, simplicidade ou confiança, aquela – lembra? -, acreditar na probidade moral, na sinceridade afetiva, nas qualidades profissionais, na promessa de dias melhores, numa história sem garantias de final feliz, na manicure de alicate afiado, no amigo de infância, na faxineira, nas palavras daquela noite ou no braço que segura o corpo no ar.

Confiança não havia, nem leveza nem balanço, movimento ou simplicidade, só a canção que, àquela altura em que as coisas estavam, era o melhor dos remédios, a melhor das terapias.

“Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura”

Restava pouco além de começar de novo, àquela altura em que as coisas estavam. Os rumos, é verdade, podiam ter sido outros. As coisas – ela tinha razão, quando dizia – podiam ter sido mais simples e as respostas, mais sinceras.

Os diálogos podiam ter sido mais leves e as noites, mais longas, como aquelas – lembra? -, livro, música, as plantas à espera de poda, rega e um dedo de conversa, liberdade, lembrança, faxina, pizza e depois chocolate, ou então os amigos que chegam, uns depois os outros, pratos e copos à mesa, conversa pra mais de metro.

O desfecho também podia ter cores mais bonitas e as escolhas, de fato, mereciam outro fim, felicidade, disposição, brilho no olho e aquele efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa. [Delícia].

Mas diálogos, noites, escolas, cores e desfecho passaram longe das expectativas. As possibilidades, ao contrário e apesar do vazio, eram imensas, sem escoras, sem domínio, sem esporas, sem fascínio. Era apenas o que dizia a canção que, àquela altura em que as coisas estavam, era o melhor dos remédios, a melhor das terapias.

“Começar de novo
E só contar comigo…”

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5 comentários sobre “começar de novo

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