encontros e desencontros

Minha primeira reação foi apertar o passo pra alcançar o sujeito de blusa azul do outro lado do saguão do aeroporto. Era ele? Não nos víamos desde o dia 14 de janeiro de 2001, Cidade do Rock, Rio de Janeiro, pra ser mais exata, cerveja quente e cara, água gelada e igualmente cara, calor dos infernos, alegria, alegria, coro de umas cem mil vozes.

“It’s the end of the world as we know it
 and I feel fine…”
[E agora a banda acabou].

Estávamos mudados: ele e duas argolas na orelha esquerda, eu e os cabelos mais curtos, alguns quilos a menos e uma argola a mais, lápis no olho, a mesma falta de batom de sempre – embora as diferenças de fato fossem outras, e mais sutis. Assistimos ao show, olhamos o céu, sentamos no chão, falamos bobagem, umas poucas lembranças, um abraço polido que nem de longe lembrava a proximidade de um passado definitivamente encerrado.

Depois disso, nunca mais, nem um telefonema, uma mensagem de voz, um torpedo ou coisa que fosse, um “oi, como vão as coisas, saudade de você, arranquei o siso, troquei de carro, terminei de ler O Lobo da Estepe, Beatriz foi para Milão, sabia?, minha irmã roubou o macacão jeans que você gostava, lembra como a gente se divertiu em Porto Alegre?; nada. 

É a vida. Um dia juramos nunca esquecer, escrevemos cartões no dia do aniversário, gravamos uma fita bonita com canções que servem de recado, copiamos um verso mais bonito ainda que encontramos num livro velho. No outro, perdemos o telefone e o tempo fica curto para cartas, e nem sabemos se o endereço mudou e ficamos um pouco tristes.

Mas logo passa, fazemos outros amigos, ganhamos outros amores, anotamos outros números de telefone, escolhemos outros versos, outras canções, gravamos CDs no lugar de fitas e –viva a tecnologia – repassamos poemas que chegaram pela Internet. Só o tempo continua curto, e um tempo depois, com algumas exceções, não sabemos mais daqueles amigos, daqueles amores, daqueles números, daqueles versos, daquelas canções.

Por sorte [será?], os desencontros passam quase sempre despercebidos. Os encontros, num bar, na fila do banco ou no caixa do supermercado, não são muito diferentes, um “você está ótima, leio suas crônicas no jornal”, um “tem notícias da Carolina”, um “beijo grande” pra terminar e só, porque o mundo, exatamente como o Cartola cantou, é mesmo um moinho.

PS. O sujeito de blusa azul do outro lado do saguão do aeroporto? Desisti, sei lá, perdi de vista.

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