viagens

Tem dias em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol. As conversas não resolvem, as minhocas não sossegam, os sentidos andam num desencontro só, os ossos doem como o quê e nem as canções suavizam a respiração, amenizam a irritação, aliviam a insatisfação.

É quase sempre uma chuva fina, fria como o mês passado, contínua como os piores fantasmas, íntima como a do poema das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho [a gravata do urubu, as quatro teorias de árvore, a palavra parede, as rachaduras e os vermes, Seu França o violeiro, as cigarras, o escuro, as casas habitadas por morcegos, as ruínas, aquilo tudo].

O jeito, daí, é caminhar para dentro da cabeça, ou então rumo ao interior, vó, sogra, primo, memórias, reencontros [ou às vezes primeira vez], campo de futebol, um drinque em cada bar, contar a novidade pros amigos de infância, o erre daquele jeito marcado e, dependendo da época, a família inteira outra vez reunida em torno da mesa ou do violão.

A chuva fria como o mês passado, contínua como os piores fantasmas e íntima como o poema das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu segue chovendo dentro da gente, mas o instituto de meteorologia e previsões de nós mesmos aponta para dias melhores, de nebulosidade baixa e temperatura estável.

Então, algumas milhas depois e embora a chuva ainda continue chovendo dentro da gente, é hora de voltar pras coisas que deixou, exatamente como naquele texto [lembra?]. Volta pro aconchego, pras plantas da varanda, pros livros sque esperam na fila da leitura perdida, pros discos displicentes que esperam as madrugas e pras madrugadas em si, que terminam com a canção perfeita para uma noite perfeita, sem explicação ou exigência, sem peso ou provocação, no volume certo, no compasso certo, no tempo certo. Volta pros projetos de ordens diversas, pro trabalho, pros afetos, pras obrigações, pros prazeres, pras cores.

[David Byrne diz no livro Diários de Bicicleta que toda cidade deixa uma cor específica na memória de quem pedala por ela. Pra mim, Vitória é azul, Londres é cinza como São Paulo, Paris é rosa e Salvador é vermelho como a fraternidade daquele lindo filme].

Richard Florida é professor de Administração e Criatividade na Escola de Administração da Universidade de Toronto, no Canadá. Ele defende que escolher qual cidade vai ser a nossa casa é a decisão mais importante que tomamos na vida, porque tem um impacto profundo em nossa trajetória profissional, nas redes sociais, na família, no estilo de vida e – palavras dele – na forma como conquistamos nossa própria felicidade.

No livro Who’s Your City, ele elege oito passos para a hora de escolher o endereço, a saber:
1 – Conhecer o que nos é imprescindível, se qualidade de vida ou uma carreira meteórica, se estar perto da família ou ter supermercado 24 horas, se uma coisa ou outra ou ainda outra
2 – Enumerar necessidades e vontades
3 – Pesquisar o mercado de trabalho, os moradores, tudo o que for possível
4 – Ponderar sobre a qualidade de vida e a estrutura, por exemplo, do transporte público
5 – Checar a saúde, a segurança, a educação
6 – Colocar o custo de vida do lugar na ponta do lápis
7 – Comparar os conflitos dos tópicos anteriores
8 – Visitar o lugar pessoalmente.

Florida fez um estudo completo sobre as melhores cidades para se viver nos Estados Unidos e no Canadá e concluiu que não há lugar melhor no mundo que o endereço que escolhemos para acordar, dormir e, quando o sapato aperta, voltar. Então, algumas milhas depois e embora a chuva ainda continue chovendo dentro da gente, a gente volta, desfaz as malas, copia as fotos pro computador, conta as novas pras meninas, retoma as tarefas da agenda e ri, simplesmente porque é bom voltar.

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6 comentários sobre “viagens

  1. Outro dia escrevi um post cujo título [chuva] e o conteúdo parecem ser irmãos separados ao nascer de seu texto. Surpresa boa saber que, mesmo dita de outra forma, minha verdade tem lá seus aliados de linha de pensamento. 😉

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