adam, joel e clementine

É um tema que vai e volta, por motivos diversos, dos levantamentos científicos aos corações partidos. Desta vez, é um pesquisador da Escola de Direito do Brooklyn, em Nova York, que defende o direito  (desculpa a repetição, gente) de usarmos remédios para apagar lembranças indesejadas do cérebro.

Adam Kolber acredita que memórias ruins podem – e devem – ser artificialmente retiradas do córtex cerebral e sustenta que o procedimento, se feito do modo certo, pode fazer toda a diferença no caminho entre uma vida saudável e uma agonia eterna para quem sofre de estresse pós-traumático.

Ele se refere, por exemplo, às cenas de destruição em massa que grudam na cabeça de bombeiros, soldados ou vítimas de acidentes de trânsito, atormentando seu sono, seus jantares e seus afetos.

Em um artigo publicado  semana passada na revista Nature,  argumenta em favor das pílulas coloridas e ondas magnéticas que outros cientistas há algum tempo exaltam – e também o cinema, desde o inesquecível dia em que Clementine Kruczynski decidiu tirar Joel Barish da cabeça porque o imenso amor que tinham virou descontrole, não servia mais.

Com eles, foi como em outras tantas histórias de amor: um encontro inicial numa tarde em que ventava como naquele texto do Rubem, um diálogo adorável, um estalo revelador e aquela vontade que faz o peito parecer mais vivo, frio na barriga, desejo, prazer, presença (oba), descoberta, delícia.

Foi como em outras tantas histórias de amor, inclusive aquela (lembra?), tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, querer viver junto para sempre, perceber que, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do cabelo desgrenhado, das manias engraçadas, das canções que embalam as melhores noites (aquelas, lembra?).

Com eles, foi como em outras tantas histórias de amor: um dia simplesmente aconteceu o que fez não ser mais possível. Foi como em outras tantas histórias de amor, e daí não mais calma, não mais riso, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes,  gosto amargo, dor no peito, tentar de novo uma tentativa frustrada, insistir e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desistir.

(Como saber, então, quando é coragem ou covardia largar uma história, sair de um encontro, deixar um amor que não responde ao seu? Como saber se o cérebro tem razão ou quem diz certo é o coração, fica mais um pouco, insiste mais um pouco, tenta mais um pouco ou o contrário?).

Com Joel Barish e Clementine Kruczynski, personagens do filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” que são um pouco como eu, você, todos nós, foi como em outras tantas histórias de amor, com a diferença que eles tinham o poder (será que ia ser bom?) de contratar uma empresa especializada em limpar pedaços da mente alheia por meio de um indolor mapeamento cerebral e, assim, eliminar os arrependimentos, as lágrimas, as tristezas, as saudades, as perdas, os erros, as palavras, tudo.

Foi como em outras tantas histórias de amor, com a diferença que, um dia, Joel Barish e Clementine Kruczynski decidiram se apagar da lembrança um do outro, literalmente. Será que ia ser bom?

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