sonhos

Então fomos ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar. Pensei por um momento que estávamos gastando à toa uma rara manhã sem cartão de ponto, e que havia faxina pra fazer, supermercado pra comprar, bronze pra pegar, sono pra pôr em dia, armário pra colocar ordem, papéis pra jogar no lixo, poeira pra tirar e uma penca de outras obrigações supostamente mais urgentes do que ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar.

A casa ficava na Cidade Alta e custava pouco para o seu tamanho. Uma boa reforma, uma senhora limpeza, duas cadeiras na varanda e meia dúzia de boas ideias talvez bastassem para transformá-la num centro cultural com livros pra emprestar, palco pra tocar samba e rock, fogão pra cozinhar macarrão, parede pra pendurar quadros, e num passe de mágica O Livro do Riso e do Esquecimento, a banda dos novos amigos, a receita daquela tarde e um original do Daniel Senise ocupariam estante, microfone, prato, parede, biblioteca, varanda, cozinha, sala, a casa toda.

Àquela altura, parecia perda de tempo sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos dentro do prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo. Acontece que não era. Casa, quadro, macarrão, estante, microfone, prato, parede, O Livro do Riso e do Esquecimento, Daniel Senise, banda, biblioteca, varanda, cozinha, sala, mágica, receita, samba e rock eram qualquer coisa, menos perda de tempo. Eram sonho.

Sonho, que o dicionário em determinado momento define como sequência de ideias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega, é aquela casa ajeitada com a gente dentro, é um sofá novo pra rever os DVDs do Chaplin durante os dias de vento sul, é a Amy Winehouse cantando sóbria no Brasil, é a certeza de um futuro que ninguém sabe direito o que reserva, é a esperança de que hoje à tarde as coisas vão voltar a ser como antes, é a trégua das insônias que pesquisadores da Universidade Duke disseram nesta semana que aumentam risco de doenças cardiovasculares nas mulheres.

[Que medo].

Sonho é a volta de um antigo amor ou a chegada de um novo, é justiça, liberdade e política decente, é ar puro e nunca mais sofrer de rinite, é música o tempo todo, bolinho de doce de leite com Coca Cola, amigos de verdade, uma casa numa ilha sobre o mar, o sol, o desapego e a digestão das coisas que fazem o estômago doer, é um anjo da guarda por perto, um carro limpo, revisado e sem bancos que decepem os dedos, é acordar sem despertador depois de quantas horas forem necessárias; é tanta coisa que coloca faxina, fogão, supermercado, conta, lixo e o mundo inteiro no chinelo.

Sonho talvez seja ser um pouco criança às vezes, porque os anos, as planilhas e as tarefas nos obrigam a parar de imaginar, e é preciso cuidar disso, manter um troço de nome estranho que descobri estes dias numa revista: NEOTENIA, capacidade de um animal de manter, na idade adulta, características típicas de sua forma jovem, sejam elas as brânquias externas das salamandras ou a vontade de aprender, a mania de rir e o hábito de se encantar até diante das coisas mais simples dos seres humanos, alguns deles, não todos. E então – Eduardo Galeano tem toda a razão – não haveria noite que não fosse vivida como se fosse a última, nem dia que não fosse vivido como se fosse o primeiro.

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