adoráveis clichês

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos cardápios, nos afetos e na escolha das canções, no cinema, nos encontros e no calor das madrugadas, pela História, pela Poesia e pelas certezas da Física. Dispensam defesas, desprezam preconceitos e desconsideram regras, gramática, dicionário e enciclopédias devidamente postos de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis, e ponto final.

As listas, por exemplo, são um dos adoráveis lugares-comuns de onde não dá pra fugir. De Nick Hornby a Regina Brett, dos 1001 discos para ouvir antes de morrer [adoro] às 50 ideias para uma vida feliz, dos 20 móveis inusitados para a sua sala às 10 carreiras que tiveram maior aumento de salário em 2010, o rol de determinações, sugestões e ações caminha da música ao câncer, dos 15 maiores símbolos sexuais de todos os tempos às cidades mais digitais do país [a nossa está lá, na quarta colocação], dos países com menor risco de desastre natural aos produtos típicos de festa junina com maiores impostos.

[Sim, eles foram enumerados em um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, e o campeão é a cachaça usada para fazer Quentão].

A ideia de que o Brasil é o país do futuro é outro lugar-comum do qual não dá para fugir. Uma pesquisa divulgada no início da semana pela Fundação Getúlio Vargas confirma a expressão criada há exatos 70 anos pelo austríaco Stefan Zweig. De acordo com o estudo, o país do futebol, do samba e dos políticos corruptos é recordista mundial de felicidade futura, índice que mede a satisfação dos povos pelos cinco anos seguintes [a Dinamarca, líder em Felicidade Presente, aparece em sexto, e a Bulgária segura a lanterna, com o menor índice de expectativa sobre o amanhã].

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos almoços, nos diálogos e na escolha dos poemas, nos botecos, nas paredes e no quente do edredon, pela Matemática, pela Geografia e pela lógica da Natureza. Dispensam explicações, desprezam julgamentos e desconsideram críticas, análise, resenha, avaliação e censura devidamente postas de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis, e ponto final.

Batata frita, chocolate com Coca Cola, pizza, Chico Buarque e Woody Allen, por exemplo. Pode ser no almoço ou depois, no jantar ou no assalto noturno à geladeira, carboidrato, açúcar, gordura e gás a serviço do prazer, a música nova, Meia-Noite em Paris e a ideia – exaustivamente repetida, como os verdadeiros clichês – segundo a qual tanto um quanto os outros até quando são ruins são bons.

Tem lugares-comuns dos quais, definitivamente, não dá pra fugir. O amor, as canções de amor e as declarações de amor, por exemplo. Um neurocientista entrevistado estes dias explica que, nos apaixonados, a dopamina ativa os centros de recompensa do cérebro e produz prazer. Segundo ele, as sensações vão do arrepio ao orgasmo, corar, suar, ofegar, ouvir o coração disparar, exibir os melhores sorrisos, as melhores ideias, as melhores formas. Você olha, encosta, afaga, aperta, ri, sonha, olha de novo, aperta mais, ri outra vez o melhor riso de todos. Existe clichê mais adorável?

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3 comentários sobre “adoráveis clichês

  1. Fora do post, mas não vi outro meio: li, por indicação no teu twitter, o texto da Revista Bula a respeito do “Meia-noite em Paris” e dos vários dos muitos causos das muitas personas daqueles anos amalucados. Sensacional, parei tudo e li linha a linha. E isto abastecido por duas idas ao cinema – uma achei muito pouco, e mesmo as duas ainda acho insuficientes. Gratíssima surpresa esse texto do Marcelo Franco que eu, inexplicável e burramente, desconhecia.

    Agora espero o dvd com seus muito extras pra voltar a me lambuzar com Paris (ah, Paris…).

    Bj.

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