adoráveis clichês

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos cardápios, nos afetos e na escolha das canções, no cinema, nos encontros e no calor das madrugadas, pelas páginas da História, pela métrica da Poesia e pelas certezas da Física. Dispensam defesas, desprezam preconceitos e desconsideram regras, gramática, dicionário e enciclopédias devidamente postos de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis e ponto final.

As listas, por exemplo, são um dos adoráveis lugares-comuns de onde não dá pra fugir. De Nick Hornby a Regina Brett, dos 1001 discos para ouvir antes de morrer às 50 ideias para uma vida feliz. Dos 15 maiores símbolos sexuais de todos os tempos às cidades mais digitais do país [a minha está lá, na quarta colocação]. Dos 20 móveis inusitados para a sua sala às 10 carreiras que tiveram maior aumento de salário em 2010, o rol de determinações, sugestões e ações caminha da música ao câncer. Dos países com menor risco de desastre natural aos produtos típicos de festa junina com maiores impostos.

[Acreditem: eles foram enumerados em um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, e o campeão é a cachaça usada para fazer Quentão].

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos almoços, nos diálogos e na escolha dos poemas, nos botecos, nas paredes e no quente do edredon, pela Matemática, pela Geografia e pela lógica da Natureza. Dispensam explicações, desprezam julgamentos e desconsideram críticas, análise, resenha, avaliação e censura devidamente postas de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis e ponto final.

Batata frita, chocolate com Coca Cola, pizza e Chico Buarque, por exemplo. Pode ser no almoço ou depois, no jantar ou no assalto noturno à geladeira, carboidrato, açúcar, gordura e gás a serviço do prazer, a música nova, Meia-Noite em Paris e a ideia – exaustivamente repetida, como os verdadeiros clichês – segundo a qual tanto um quanto os outros até quando são ruins são bons.

Tem lugares-comuns dos quais, definitivamente, não dá pra fugir. O amor, as canções de amor e as declarações de amor, por exemplo. A neurociência explica que, nos apaixonados, a dopamina ativa os centros de recompensa do cérebro e produz prazer. Segundo ele, as sensações vão do arrepio ao orgasmo, corar, suar, ofegar, ouvir o coração disparar, exibir os melhores sorrisos, as melhores ideias, as melhores formas. Você olha, encosta, afaga, aperta, ri, sonha, olha de novo, aperta mais e ri outra vez, o melhor riso de todos. Tem clichê mais adorável?

3 comentários sobre “adoráveis clichês

  1. Fora do post, mas não vi outro meio: li, por indicação no teu twitter, o texto da Revista Bula a respeito do “Meia-noite em Paris” e dos vários dos muitos causos das muitas personas daqueles anos amalucados. Sensacional, parei tudo e li linha a linha. E isto abastecido por duas idas ao cinema – uma achei muito pouco, e mesmo as duas ainda acho insuficientes. Gratíssima surpresa esse texto do Marcelo Franco que eu, inexplicável e burramente, desconhecia.

    Agora espero o dvd com seus muito extras pra voltar a me lambuzar com Paris (ah, Paris…).

    Bj.

  2. […] Às vezes é o contrário, e são as ausências que definem o que vem primeiro e o que vem depois, se o dinheiro ou o amor, se viajar ou pagar o financiamento, se o incerto ou a estabilidade, se esperar ou partir, se o movimento ou o silêncio, se não correr riscos ou tentar, em nome do melhor riso de todos, olha, encosta, afaga, aperta, ri, sonha, olha de novo, aperta mais, ri outra vez. […]

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