parceiros

É possível que não houvesse a bossa nova e os maiores crimes da História, os gols mais bonitos do século e os maiores amores do mundo. É possível que não houvesse as melhores noites, vodca ou vinho, rock ou samba, na rua ou em casa, publicável ou nem, a trilha sonora perfeita  no volume certo, no compasso certo, no tempo certo. Sem os parceiros, é possível que nem cor houvesse direito.

É possível que não houvesse a arte da botecagem, os encontros, os reencontros, os desencontros e a convivência entre cotidiano e acaso, rotina e surpresa, matemática e a arte, a métrica e o sentimento. É possível que não houvesse vontade de voltar, casa, ponte, escada, praça, parede, quarto, estante, livro à espera de concentração, discos à espera das madrugadas, madrugadas em si e os silêncios em que a gente investe, porque são, de fato, ótimos investimentos. Sem os parceiros, é possível que nem sorriso houvesse direito.

Parceiros elevam o estado de espírito da gente, riem até das piores piadas e reparam nos sorrisos da gente, dos mais tímidos às gargalhadas típicas, da repetição à ausência. Diante de um problemão, eles dizem, com pequenas variações de estilo:

– Vamos resolver. Já passamos por coisa pior.

Parceiros correm junto, e perdem as contas de quantas vezes as coisas deram certo, quantas noites terminaram bem, quantos planos viraram verdade. Parceiros sonham junto, uma viagem, uma casa, um projeto, um bom negócio, um livro, um filho, uma árvore e às vezes meia dúzia de clichês. Sem os parceiros, é possível que nem o sol tivesse a mesma graça. Parceiro é pra dividir a conta, a carona, o chocolate, o sanduíche da madrugada e as incertezas do cotidiano. Parceiro é pra dividir a vida, ou então fazer música, Tom e Vinicius, João e Aldir, Lennon e McCartney, Roberto e Erasmo.

Parceiro samba junto, ou dança a baladinha de quando a gente não imagina por quê, e tem até os malvados, desordenados, transtornados e desajustados – pra eles, parceria é roubar bancos, explodir prédios, matar desafetos ou coisa do tipo. É possível que sem eles não houvesse o dilema da propaganda do futebol [tanto faz se no bar ou em casa, desde que em boa companhia], e nem as fotos fossem tão divertidas. Parceiro ouve, e conversa sempre, até quando as discordâncias parecem maiores que o mundo, nunca o contrário, ausência de resposta, dureza no julgamento e nenhuma chance de saber do que o outro tem a dizer.

Parceiro é mais que amigo, mais que amor, e engrossa as estatísticas do Centro de Pesquisa em Opinião Pública da Universidade de Chicago segundo as quais homens e mulheres com pelo menos cinco pessoas muito próximas são 50% mais felizes do que homens e mulheres de círculos sociais mais restritos.

Parceiro abraça, estimula, apoia, espera junto, acredita até nas menores ideias, livro, festa, comida, viagem e banho de chuva, exatamente como o personagem de “Meia-Noite em Paris”, Hemingway, Fitzgerald, Cole Porter, Picasso, Dali, uma guerra terrível e outra pior ainda que eles nem sabiam [talvez pressentissem] que estava por vir. Gil Pender, o protagonista, quer viver de literatura, morar em Paris e, sempre que possível, andar na chuva. Sua noiva faz justo o oposto do que fazem os bons parceiros: pressiona para que ele siga uma carreira infeliz desde que bem paga, prefere as certezas às vontades, despreza seus projetos e procedimentos, pensa apenas com o próprio umbigo, e aí, meu amigo, não tem parceria que resolva.

sonhos

Então fomos ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar. Pensei por um momento que estávamos gastando à toa uma rara manhã sem cartão de ponto, e que havia faxina pra fazer, supermercado pra comprar, bronze pra pegar, sono pra pôr em dia, armário pra colocar ordem, papéis pra jogar no lixo, poeira pra tirar e uma penca de outras obrigações supostamente mais urgentes do que ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar.

A casa ficava na Cidade Alta e custava pouco para o seu tamanho. Uma boa reforma, uma senhora limpeza, duas cadeiras na varanda e meia dúzia de boas ideias talvez bastassem para transformá-la num centro cultural com livros pra emprestar, palco pra tocar samba e rock, fogão pra cozinhar macarrão, parede pra pendurar quadros, e num passe de mágica O Livro do Riso e do Esquecimento, a banda dos novos amigos, a receita daquela tarde e um original do Daniel Senise ocupariam estante, microfone, prato, parede, biblioteca, varanda, cozinha, sala, a casa toda.

Àquela altura, parecia perda de tempo sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos dentro do prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo. Acontece que não era. Casa, quadro, macarrão, estante, microfone, prato, parede, O Livro do Riso e do Esquecimento, Daniel Senise, banda, biblioteca, varanda, cozinha, sala, mágica, receita, samba e rock eram qualquer coisa, menos perda de tempo. Eram sonho.

Sonho, que o dicionário em determinado momento define como sequência de ideias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega, é aquela casa ajeitada com a gente dentro, é um sofá novo pra rever os DVDs do Chaplin durante os dias de vento sul, é a Amy Winehouse cantando sóbria no Brasil, é a certeza de um futuro que ninguém sabe direito o que reserva, é a esperança de que hoje à tarde as coisas vão voltar a ser como antes, é a trégua das insônias que pesquisadores da Universidade Duke disseram nesta semana que aumentam risco de doenças cardiovasculares nas mulheres.

[Que medo].

Sonho é a volta de um antigo amor ou a chegada de um novo, é justiça, liberdade e política decente, é ar puro e nunca mais sofrer de rinite, é música o tempo todo, bolinho de doce de leite com Coca Cola, amigos de verdade, uma casa numa ilha sobre o mar, o sol, o desapego e a digestão das coisas que fazem o estômago doer, é um anjo da guarda por perto, um carro limpo, revisado e sem bancos que decepem os dedos, é acordar sem despertador depois de quantas horas forem necessárias; é tanta coisa que coloca faxina, fogão, supermercado, conta, lixo e o mundo inteiro no chinelo.

Sonho talvez seja ser um pouco criança às vezes, porque os anos, as planilhas e as tarefas nos obrigam a parar de imaginar, e é preciso cuidar disso, manter um troço de nome estranho que descobri estes dias numa revista: NEOTENIA, capacidade de um animal de manter, na idade adulta, características típicas de sua forma jovem, sejam elas as brânquias externas das salamandras ou a vontade de aprender, a mania de rir e o hábito de se encantar até diante das coisas mais simples dos seres humanos, alguns deles, não todos. E então – Eduardo Galeano tem toda a razão – não haveria noite que não fosse vivida como se fosse a última, nem dia que não fosse vivido como se fosse o primeiro.

adoráveis clichês

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos cardápios, nos afetos e na escolha das canções, no cinema, nos encontros e no calor das madrugadas, pela História, pela Poesia e pelas certezas da Física. Dispensam defesas, desprezam preconceitos e desconsideram regras, gramática, dicionário e enciclopédias devidamente postos de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis, e ponto final.

As listas, por exemplo, são um dos adoráveis lugares-comuns de onde não dá pra fugir. De Nick Hornby a Regina Brett, dos 1001 discos para ouvir antes de morrer [adoro] às 50 ideias para uma vida feliz, dos 20 móveis inusitados para a sua sala às 10 carreiras que tiveram maior aumento de salário em 2010, o rol de determinações, sugestões e ações caminha da música ao câncer, dos 15 maiores símbolos sexuais de todos os tempos às cidades mais digitais do país [a nossa está lá, na quarta colocação], dos países com menor risco de desastre natural aos produtos típicos de festa junina com maiores impostos.

[Sim, eles foram enumerados em um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, e o campeão é a cachaça usada para fazer Quentão].

A ideia de que o Brasil é o país do futuro é outro lugar-comum do qual não dá para fugir. Uma pesquisa divulgada no início da semana pela Fundação Getúlio Vargas confirma a expressão criada há exatos 70 anos pelo austríaco Stefan Zweig. De acordo com o estudo, o país do futebol, do samba e dos políticos corruptos é recordista mundial de felicidade futura, índice que mede a satisfação dos povos pelos cinco anos seguintes [a Dinamarca, líder em Felicidade Presente, aparece em sexto, e a Bulgária segura a lanterna, com o menor índice de expectativa sobre o amanhã].

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos almoços, nos diálogos e na escolha dos poemas, nos botecos, nas paredes e no quente do edredon, pela Matemática, pela Geografia e pela lógica da Natureza. Dispensam explicações, desprezam julgamentos e desconsideram críticas, análise, resenha, avaliação e censura devidamente postas de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis, e ponto final.

Batata frita, chocolate com Coca Cola, pizza, Chico Buarque e Woody Allen, por exemplo. Pode ser no almoço ou depois, no jantar ou no assalto noturno à geladeira, carboidrato, açúcar, gordura e gás a serviço do prazer, a música nova, Meia-Noite em Paris e a ideia – exaustivamente repetida, como os verdadeiros clichês – segundo a qual tanto um quanto os outros até quando são ruins são bons.

Tem lugares-comuns dos quais, definitivamente, não dá pra fugir. O amor, as canções de amor e as declarações de amor, por exemplo. Um neurocientista entrevistado estes dias explica que, nos apaixonados, a dopamina ativa os centros de recompensa do cérebro e produz prazer. Segundo ele, as sensações vão do arrepio ao orgasmo, corar, suar, ofegar, ouvir o coração disparar, exibir os melhores sorrisos, as melhores ideias, as melhores formas. Você olha, encosta, afaga, aperta, ri, sonha, olha de novo, aperta mais, ri outra vez o melhor riso de todos. Existe clichê mais adorável?