vento ventania

Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.

Rubem Braga

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longe, perto

O que aproxima e o que separa os seres humanos de um planeta de quase sete bilhões de habitantes, formado há 4 bilhões e meio de anos, 70% de oceanos em sua superfície, 32% de ferro, 30% de oxigênio, 15% de silício e 13% de magnésio? O que une e o que separa homens, mulheres, velhos e crianças brancos, pretos, amarelos ou vermelhos uns dos outros? O que une e o que separa os felizes dos tristes, os boêmios dos saudáveis, os sábios dos egoístas, os humildes dos impacientes, os imprescindíveis dos outros?

A ausência às vezes aproxima, embora quase sempre afaste, buraco, silêncio, vazio e a mais completa falta de notícias. Os encontros aproximam, momento inesperado, figurino impróprio, endereço improvável e a paz – aquela, lembra? – de quando você não tem muitas expectativas, e de repente as coisas acontecem. A mentira afasta, e nada mais precisa ser dito. As vontades aproximam, desejo, tesão, escolha e aquela versão lindíssima em que Gal Costa, violão no colo e flor na cabeça, canta o Lupicínio.

“Volta
Vem viver outra vez ao meu lado
Não consigo dormir sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado…”

O corpo, nas melhores noites, aproxima, braço, perna, joelho, concha e cafuné colocados a serviço do afeto. O amor às vezes separa, mas também junta, como o sentimento daquele bom companheiro dos botecos rodeado de promessas que foram se esfarelando pela vida: Barney Panofsky, protagonista marcante de um filme idem [A Minha Versão do Amor] sobre erros, memórias, escolhas [sempre elas] e fantasmas.

O que aproxima e o que separa os seres humanos de um planeta feito de atmosfera, hidrosfera, pedosfera e nos últimos anos também blogsfera? As tarefas domésticas unem, ganhar sementes pra ampliar o jardim, trocar receitas com beringela enquanto o trânsito não anda, pedir o açúcar do vizinho porque faltou um tanto, convocar as amigas pra dose dupla de Desperate Housewives, Bree Van de Kamp, Susan Delfino, Lynette Scavo, Gabrielle Solis e as sombras de Wisteria Lane.

[Adoro].

A arte certamente aproxima, canções, cinema, livro, dança, teatro, pintura e o que vier destinados a pensar na vida, ou só sorrir [o que também é ótimo negócio]. As causas coletivas tenho dúvidas, parecem cada vez mais individuais, preço da passagem para uns, trânsito engarrafado para outros e o próprio umbigo subitamente alçados à condição de coisa mais importante do mundo.

O que aproxima e o que separa os seres humanos, afinal? Três franceses resolveram fazer a pergunta para 5.500 pessoas em 75 países, e lançaram uma exposição com as respostas recolhidas ao longo de seis anos para questões como “o que você sonhava ser quando era criança?”, “o que é a felicidade?” ou “qual é o sentido da vida?”. Yann Bertrand, Sibylle d’Orgeval e Baptiste Rouget-Luchaire chegaram a uma conclusão certeira: o que mais aproxima os seres humanos de um planeta de quase sete bilhões de habitantes é a capacidade de escutar o outro, de verdade.