saídas nº 2

Às vezes é preciso deixar, aceitar as partidas, abandonar o apego, suavizar o desejo, entregar os pontos, soltar as amarras, dispensar as respostas, abrir a porta, rezar para que haja volta se tiver de ser e deixar. Às vezes é preciso afastar a posse, impedir as minhocas, lembrar e de novo e outra vez que amar e libertar são o mesmo ato, agir com mais equilíbrio, pensar de modo menos sistemático, administrar os afetos exatamente como na canção, de quem ama demais para ser prisão.

Às vezes é preciso aceitar que não se pode dominar a natureza, o mundo e as vontades alheias, entender que o preço do controle é a eterna vigilância e que vigiar eternamente cansa, dá rugas, tensiona os músculos, trava o maxilar, projeta o peito para a frente e faz doer os olhos. Às vezes é preciso entender que planejamento, organização, responsabilidade e disciplina não são garantia de que as coisas vão sair exatamente daquele modo.

Às vezes é preciso cair na estrada, como daquela vez, sol na cara e a alegria de estar ali como se não houvesse mais nada além de ir, roupas espremidas na mala de mão e o espírito de largar tudo para trás, aquele desejo imenso de sumir do mapa quando a cabeça dói ou então são as juntas, o amor ou a ponta do nariz, simplesmente fugir como Drummond, à meia-noite em ponto ou nunca.

Às vezes é como o texto de outro dia: aumentar o rádio e deixar Chesney Henry Baker dominando o ar como se não houvesse mais nada além das notas dele e da imaginação, acreditar enquanto ouve, acreditar na música, na dança, na melodia e no movimento, fazer diferente, mudar de modos, pensar de outro jeito, agir como nunca antes na história da própria vida, desligar a luz e de preferência sonhar, sonhar com a casa nova, com a mesa nova, a máquina de lavar e plantas de encher o ambiente, as contas no lugar, aquela presença que ri, ocupando tudo.

Às vezes a saída é correr pro violão, cantar as canções todas, uma depois da outra, Noel, Roberto, Zeca, Francisco, Elis, Elizeth, Gil e o Caetano, saber da piscina, da margarina, da Carolina e da gasolina. Vivemos na melhor cidade da América do Sul, mas às vezes é preciso deixar, aceitar as partidas, abandonar o apego, suavizar o desejo, entregar os pontos, soltar as amarras, dispensar as respostas, abrir a porta, rezar para que haja volta se tiver de ser e deixar.

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