o atirador da escola

A esta altura em que escrevo [quinta, dez e meia da noite] ainda não se sabe qual distúrbio acometia o sujeito que matou as crianças da escola de Realengo, no Rio, 23 anos.

Filho adotivo, caçula de cinco irmãos, era bom aluno segundo professores, o bobo da turma na descrição de um colega de sala, pouca conversa de acordo com companheiros de trabalho em uma fábrica de salsichas, estranho, tímido e recluso nas palavras de vizinhos, uma barba enorme que raspou há cinco dias e um hábito diário: sair cedo, voltar no final da tarde, comprar um refrigerante na mercearia e entrar pelo portão para ficar a noite diante do computador.

Psicólogos, pedagogos, policiais e psiquiatras estão a postos desde as primeiras notícias para tentar explicar as razões do atirador da escola. Que tipo de loucuras ele possivelmente carregava, e de que modo planejou voltar a sua antiga escola, matar alunos e a si mesmo, conforme vocês já devem ter ouvido dizer, em maior ou menor intensidade, com maior ou menor atenção, num canal ou no outro, aqui na internet, no jornal, na fila da padaria, no elevador ou no salão de beleza?

Em que ponto ele perdeu o equilíbrio? Em que momento passou de lúcido a doido, se for o caso? Que responsabilidades tiveram sua criação, as ausências, os limites e as concessões que experimentou, suas saudades, as expectativas desfeitas e os diálogos não consumados?

Qual o peso de suas quedas, de como sentia o que via, de algum coração partido, se for o caso, da dor que vai ver ele escondia, ódio, trauma, vai saber? Quanto daquilo estava em seu cérebro, nas substâncias químicas que faltavam ao corpo? Quando cruzou o limite de tal forma que não podia mais voltar atrás e recuperar a capacidade de andar na linha?

[Infelizmente acontece].

Vai ver era mau como os piores bandidos, mas parece mais que fosse uma daquelas mentes que passam a vida tentando se equilibrar e sempre perdem no final, confusão, desejo e a conclusão de que quase ninguém presta atenção na letra das canções, os sentimentos mais secretos de ódio e ciúme e medo e apego e desânimo e desprezo.

Vai ver era como o filho de Clarice Lispector, que disse ainda criança para ela: “Mamãe, eu tenho ouvidos especiais. Posso ouvir música no meu cérebro, e posso ouvir vozes também, que não estão lá”.

Vai ver era como as meninas daquele filme de 99, internadas num hospital psiquiátrico nos Estados Unidos dos anos 60, a loucura em estado bruto e às vezes nem, só solidão, desespero, agressividade e o Wilco, o Dylan, The Mamas and The Papas, o vozeirão de Aretha Franklin no tempo certo e o balanço de Petula Clark em “Downtown”:

“Quando as coisas pesam a gente ainda pode ir ao centro da cidade para ouvir o barulho dos carros, o riso das pessoas que passam e as canções de bossa nova…”

Anúncios

2 comentários sobre “o atirador da escola

  1. Triste demais essa situação amiga blogueira!!Mais triste é saber que podem existir tantos atiradores ao nosso lado e não sabermos!!Em casa, na rua, no ônibus ou até mesmo dentro de uma redação de jornal!Pessoas que se dizem as santas e heroinas, rotuladas de inteligentes, mas no fundo são apenas cinzas de si próprias quando discriminam e substimam o poder do colega de profissão!!Realmente é uam sociedade hipócrita e doentia esta nossa!!Parábens pela “inteligente” análise!Abç

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s