aquilo que diz a canção

É aquilo que diz a canção:
“Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar”.

As dores doem fundo e a testa franze diante de uma quina que atropela o joelho, da desconfiança que nasce com certas noites, da coluna depois do expediente, da morte dos queridos em qualquer tempo, da mentira que sua amiga descobre quando menos espera [ou até espera, mas vai saber porque desculpa], da cabeça nos dias de TPM, dos olhos nas alergias do outono, das saudades, da informação que chega como uma bomba e a gente não tem a menor ideia do que faz com ela.

O peito aperta, o estômago dói, e a gente se posta diante de um mundo de expectativas desfeitas, o amor que não vinga, a flor que não sobrevive, o telefone que não toca, o aumento de salário que não vem, a dieta que não funciona. As causas se parecem, mas os nomes são diversos e em cada lugar são distintos os sintomas: torcer o pescoço do culpado pela desilusão em comunidades mais violentas, contemplar o nada nas regiões remotas do Tibet, comprar loucamente numa esquina da Aleixo Neto, dependendo da maneira como cada sociedade encare o fato popularmente conhecido como cair do cavalo.

É aquilo que diz a canção:
“Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar”.

As decepções enchem a rotina de nada, e nem uma agenda inteira de obrigações e compromissos apaga a tristeza de ter sido enganado, deixado, maltratado, levado, seduzido ou cozido por mais tempo que os livros de receita recomendam desde 273 antes de Cristo, época em que uma alquimista grega chamada Maria inventou de aquecer coisas dentro de recipientes imersos em água a, no máximo, 100 graus de temperatura.

[Surgia o banho-maria].

Os dias parecem mais longos que nunca, café da manhã, jornais, almoço, tarde, lista de tarefas, trânsito difícil, jantar, canções, faxina, telefone e molhar as plantas, um texto, boteco, insônia e outra vez o sol à espera de sorrisos que no momento não existem. Você fala, pensa, cala, faz que dorme, acorda, abraça, tenta, relativiza [tenta], perdoa [tenta], de vez em quando chora, apaga, desiste ou então insiste, e haja fé pra tanta causa impossível, voltar, acertar, consertar, começar, retomar, compreender, cicatrizar, acabar com as dúvidas, os desencontros e as minhocas da cabeça, Santa Rita rogai por nós hoje e sempre amém.

É aquilo que diz a canção, com uma frase a mais, um pouco mais animadora, que a gente espera que de fato seja [tomara, Deus]: “Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar. Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.”

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