saídas

Às vezes a saída é rezar, uma reza sincera e funda como aquela que a gente reza quando não há mais lógica, razão, bom senso ou diálogo. O cenário não importa, só a coluna reta, as velas a postos e tanto silêncio quanto for possível, os desejos todos colocados em ordem, exibidos sem pudor para Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento de Núrsia, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários, serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça amém.

Às vezes a saída é aumentar o rádio, Chesney Henry Baker dominando o ar como se não houvesse mais nada além das notas dele e da imaginação, e acreditar enquanto ouve, acreditar na música, na dança, na melodia e no movimento. Às vezes a saída é fazer diferente, mudar de modos, pensar de outro jeito, agir como nunca antes na história da própria vida em busca de resultados melhor sucedidos. O objetivo é nobre: abafar o apego, suavizar a posse, equilibrar os anseios de controle, mandá-los para longe, o mais longe possível, e viver de suavidade, leveza e liberdade, outra vez acordada dormida assistida assumida cortada incluída como naquela canção de quem ama demais para ser prisão.

Às vezes a saída é não saber.

Às vezes a saída é dormir, desligar a luz, encostar a porta, fechar os olhos e de preferência sonhar, sonhar com a casa nova, as plantas enchendo o ambiente, as contas no lugar, aquela presença que ri ocupando tudo. Às vezes a saída é outra: deixar, pra lá, pra depois, pros outros ou pro nada, abdicar de qualquer tentativa de regular, censurar, segurar, pesar na mão, nas perguntas, nas posses e nas vontades. Daí a força é para entender que não adianta insistir, segurar, cercear, porque cansa, desgasta e o resultado quase sempre é muito distante do que se quer. Simplesmente não adianta. A saída, às vezes, é simplificar.

Às vezes a saída é escrever, fazer como na abertura do livro de agora, limpar as vestes, clarear o ambiente, tomar nas mãos a pena, a tinta e a mesa, combinar umas poucas ou muitas letras, trocá-las e outra vez combiná-las até que o coração se aqueça. Ou então como determinou o Graciliano, escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício: uma primeira lavada na beira do riacho, torce, molha, torce outra vez, anil, ensaboa, enxágua, bate na pedra limpa, torce mais um pouco até não pingar uma só gota, e então pendura na corda pra secar.

A saída às vezes é rasgar o que se escreve, ou então um samba, cadência, beleza, Bahia, poesia e a tristeza que balança (a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não). Um bom samba, como o Baden e o branco mais preto do Brasil há tempos ensinaram, afinal, é uma forma de oração. Às vezes a saída é rezar.

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13 comentários sobre “saídas

      1. Certa vez, nada parecia mesmo funcionar. Então fui até a praia. Caminhei até o final da baía, subi a pedra mais alta que pude, peguei uma concha em formato de caracol, com o peso certo de uma pedrinha, destas que a gente escolhe para atirar na água. Conferi estar transferindo todo sentimento para aquela concha. E decidi atirar ao mar, para que levasse à outros destinos. Pestanejei de última hora, confesso. Faltava a coragem de atirar, me esvaziando. Questionei se com o gesto não acabaria por me afogar. Mas o vento e o mar (creio que foram eles, senão os serem que lá habitam), uníssonos, me fizeram ouvir: “confie, faremos tudo dentro das normas de segurança”. Algo assim. Não deu para entender direito. Joguei. E isso me curou. Nem conto, quanto ao Sul fui parar… Só posso dizer que um par de golfinhos acabaram vendo a concha solta entre as ondas. Acharam bonitinha, e passaram a carregá-la com eles, nos limites da costa, longe dos tubarões, protegido das redes, dos salva-vidas ou mesmo turistas. Seguem brincando de jogar a concha um para o outro, com o focinho; às vezes rebatendo com a calda, como se meus sentimentos fossem a bolota de meia deles… Tem dias que é divertido, outros nem tanto. Mas enquanto não erram a tacada, me levando à areia da praia, não tenho muita escolha… Quem ia contar com este risco? 🙂

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