dos livres

Era a mesma frase só que em outro contexto, alguns anos separando um momento do outro, dois cenários distintos, dois personagens diferentes e a mesma verdade guardada naquelas palavras: “Amar e libertar são o mesmo ato.”

Da primeira vez era inverno, ano ímpar e um modo sufocante de sentir as coisas, ar impuro, dor profunda, diálogos imprecisos, imobilidade, desvio de septo, ciúme em excesso, Ne me Quitte Pas, o Concerto para Violoncelo e Orquestra de Heitor Villa-Lobos, a poeira dos livros, os amigos que escorriam pelos dedos, o trânsito, a saudade, as expectativas desfeitas, não encontros e não notícias, falta de dinheiro, um sufoco só.

Tentava se convencer de que ser livre era deixar-se seduzir pelas próprias ideias, porque talvez de fato fosse. Era ir e depois voltar, mudar de tom, criar, descansar, parar, respirar, destruir, reconstruir, mudar de rumo, de casa, de estação, acordar como se não houvesse nem dor nem vazio nem louça pra lavar nem conta pra pagar nem prazos pra cumprir nem defeito no cano de descarga. Era deixar pra trás os sonhos, os amigos em comum, a preguiça do domingo, o macarrão, tudo, porque sonhos, conta conjunta, amigos, domingo e vinho afastavam a possibilidade de sentir as coisas de outro jeito que não aquele, e aquele jeito de sentir as coisas simplesmente não servia.

Da segunda vez era verão, outro endereço e uma leveza eficiente na maneira de levar as coisas, pequenos pecados, um mundo inteiro de sambas e balanços, simplicidade e silêncio, Ive Brussel, os pratos da cozinha, os amigos que chegavam para celebrar, o mar, os planos para o futuro, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, uma leveza só, ou o quanto fosse possível, mesmo que nem sempre fosse.

Não se sabia por quanto tempo, se apenas uns meses a mais ou a vida toda, se toda noite ou só três por semana, se a gramática, o dicionário e o novo tratado ortográfico na íntegra ou como os dogons, que acreditam ter nascido com uma quantia de palavras na barriga e, durante a vida, gastam o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos. Um dia, quando o estoque acaba, eles morrem.

Não se sabia quase nada, apenas da força da suavidade, da virtude do silêncio, do poder do riso e do quanto fazem bem o movimento, o desapego e a confiança, aquela mesma, crença na probidade moral, na sinceridade afetiva, na promessa de dias melhores, numa história sem garantias de final feliz, na eleição da Assembleia Legislativa, na manicure de alicate afiado ou no simples ato de fazer que dorme somente para aproveitar o braço.

Era a mesma frase, só que em outro momento, um separado do outro pelo aprendizado de que agir com mais equilíbrio, pensar de modo menos sistemático e sentir com menor intensidade colaboram com qualquer conquista. Melhor que prender, afinal, é querer, ou não querer ser comida engolida acordada dormida assistida assumida cortada incluída, exatamente como naquela canção, de quem ama demais para ser prisão.

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