cauby

Ele olhava o gravador fixamente e, só depois de alguns minutos, percebi que não ouvia as perguntas. Era quinta à noite e o salão estava lotado. O público queria vê-lo cantar e, de preferência, cantar junto, “chorei, chorei, até ficar com dó de mim, e me tranquei no camarim, tomei um calmante, um excitante e um bocado de gim”, e todo o resto. Eu só conseguia pensar em como um dos maiores cantores do Brasil podia estar ouvindo quase nada e continuar cantando daquela maneira.

Estávamos num bar tradicional, com nome de cerveja e endereço de letra de música. Havia pouco, eu tinha ganhado do chefe a incumbência de entrevistar Cauby Peixoto, com qualquer coisa entre 74 e 78 anos, um semblante que ninguém explica e um incrível séquito de fãs. Entrevistei [ou tentei], e sentei pra ver a banda passar.

Cauby, famoso pelo vozeirão e pelo visual extravagante, caminhava entre as mesas até o palco com muita dificuldade, primeiro porque ele definitivamente não nasceu ontem, depois por causa das investidas nada tímidas do público, que iam de gritos de “Cauby, Cauby, Cauby” a afagos e selinhos na boca – de homens, inclusive.

Ele agradeceu, deu tchauzinho, exibiu a prótese dos dentes com um sorrisão e – delírio! – mandou ver nas primeiras notas de “Sampa”, a canção de Caetano Veloso que imortalizou o endereço do Bar Brahma, templo da boemia paulistana entre os anos 50 e 60, o número 667 cravado no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João.

Cauby não bebe em serviço [nem água] e, vez por outra, mete os óculos de grau para ler as letras que interpreta desde 1954, quando o produtor Edson Di Veras o descobriu e o transformou numa figura que ninguém sabe direito o que é, se metro, hetero ou homo [ele se resume a dizer que o que dizem “deve ser por causa dos trejeitos, porque sou um moço educado”], feliz ou triste [ele costuma dizer que teve o dedo de Deus na carreira, mas fracassou no amor], pessoa ou personagem.

Ele me disse, por exemplo, que em casa era o mais simples que se possa pensar, com pijaminha velho, chinelinho e tal, sem artifício. Disse que, ao contrário da canção, nada acontecia no seu coração àquela altura do campeonato: “Não tem ninguém especial que eu possa dizer a você que é minha mulher ou meu amor; não existe”.

Lembrou dos primeiros tempos em que usava ternos apenas alinhavados para, digamos, facilitar o trabalho das fãs que quisessem rasgá-los, contou que ouvia muita música, principalmente as suas, “para melhorar as interpretações”, e afirmou que é o melhor cantor do Brasil, porque “faltam outros no praça”. De paletó branco, gravata curta de bolinhas brancas sobre blusa e calça pretas, pouca maquiagem, o basiquinho Cauby nem de longe lembrava o sujeito que vivia vestido de doirado. Até soltar a voz.

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3 comentários sobre “cauby

  1. Gostei demais do texto, mesmo. Estive nesse bar em 2005, numa noite de uma conexão que tinha a fazer em Sampa. Cauby é “fixo” de lá, não? “Residente”, como os modernos dizem.

    Bjs, Ana.

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