o princípio da incerteza

É Física, Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg, mas podia ser qualquer coisa, história de amor, rumos no trabalho, dívida pendente, lista do supermercado, programa de sábado, um vestido ou o outro, insistir ou desistir [o velho dilema, qual hora é a hora, enfim?], o silêncio ou um discurso inteiro, dizer ou nem, uma lista de canções para ouvir na praia, qualquer coisa.

Podia ser o que corre entre um homem do desapego mais profundo e uma mulher delicada e deslocada, a madrugada inteira de riso e canção, o braço de um em volta do corpo do outro e a vontade de acordar por perto, exatamente como as palavras de Clarice L. para aquele dia de sol: dizer do que não se pode dizer, silêncio, traduzir, contar, olhar, segredo, encontro e, sem mais nem para depois, um estado agudo de felicidade [delícia].

Podia ser a indecisão de uma segunda-feira inesperada, seguir ou recuar, dizer sim aos desafios ou manter o pé no planejado, pedir as contas ou seguir, até o fim da carreira, num mesmo endereço, um mesmo salário, uma mesma rotina. Podia ser não saber se melhor pagar a luz ou o gás, comprar Pinho Sol ou Ajax, “A Droga do Amor” no cinema ou jantar o ovo perfeito, a estampa do próximo inverno ou o velho xadrez de sempre, um tom depois do outro, como no passado.

Podia ser largar o osso ou seu oposto, como Florentino Ariza durante cinquenta e três anos, sete meses, onze dias e as respectivas noites, assim mesmo, números por extenso, detalhe por detalhe. Podia ser um pedido repetido repetido repetido e a mesma esperança de que, enfim, não houvesse mais ausência. Podia ser uma lista de canções para celebrar o sol, o vinil para acampamentos de que falávamos na cantina, os sambas do Paulinho, um samba rock qualquer ou a baladinha da moça que tem nome de flor.

[Isso é o que o amor faz].

Podia ser qualquer coisa, mas é Física, Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg, segundo o qual não se pode saber simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. Quanto maior for a precisão com que se conhece a posição ou a velocidade das partículas que compõem o mundo, menor vai ser a certeza com que se saberá da outra, diz Heisenberg, um cientista que, segundo consta, resistiu à tentação de impor suas ideias à Natureza e decidiu, antes de mais nada, observá-la, tirar dela explicações para os átomos e quem sabe meios para compreender o mundo inteiro.

Heisenberg inventou a mecânica quântica, usada, se entendi direito, para determinar a energia e a posição de moléculas, elétrons e prótons e, lá pelas tantas, interpretar de algum modo e dentro do possível o funcionamento do que se vê e do que não se vê. É Física, mas podia ser qualquer coisa, incerteza sobre o amor, descrença no trabalho, instabilidade no orçamento, dúvida nas tarefas domésticas, indecisão sobre o que vestir, o vazio que ocupa o fim do estado agudo de felicidade [acontece], o não saber o que escolher diante do velho dilema. Qual hora é a hora, enfim?

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