quero continuar aquário

A verdade é que eu quero continuar Aquário.

Gosto do idealismo que os astros dizem ser marca dos que nasceram entre 21 de janeiro e 19 de fevereiro, da aposta na liberdade, na criatividade, na originalidade, na igualdade, na fraternidade, na solidariedade e no desapego [dentro do possível, e de modo dedicado]. Gosto quando afirmam que somos observadores e confiáveis, sérios no trabalho, organizados no cotidiano, honestos nas escolhas, democráticos no trato, que temos aspirações elevadas e grandes inspirações, interesse nos problemas da humanidade e respeito dos que vivem perto.

Gosto até dos adjetivos “excêntrico” e “inconvencional” que o astrólogo Chico Buarque dedicou aos aquarianos naquele disco de capa branca, fita amarela e letras miúdas, Ganimedes príncipe de tal perfeição e beleza que mereceu a atenção dos imortais, o poderoso Júpiter e todos os pecados humanos, águia, morada dos deuses, banquetes, ânfora, promessa e a segunda faixa, inteira, embalando os desencontros cronológicos do funcionário e da dançarina.

[O amor deles é tão bom, o horário é que nunca combina].

A verdade é que eu quero continuar Aquário. Prefiro respeitar o que disseram os astros sobre a última segunda-feira, viagem rápida, fé nos queridos, afetos que florescem mais fortes, discrição, silêncios e tudo, e, com todo o respeito, contrariar o astrônomo Parke Kunkle, que diz que somos, isto sim, Capricórnio, do mesmo modo que escorpianos se concentrariam entre os nascidos no dias 23, 24, 25, 26, 27, 28 e 29 de novembro e haveria, até, um signo novo, Ophiuchus, a partir de então e até 17 de dezembro.

Kunkle defende que, conforme Terra e Sol se movimentam, os signos, definidos do modo como conhecemos hoje há quase três mil anos, mudam. Sagitarianos, por exemplo, seriam aqueles que nasceram entre 17 de dezembro e 20 de janeiro e não mais 22 de novembro e 21 de dezembro, como desde sempre, João, Clara, Rafael, Fernanda e Carolina. Piscianos passariam a outra coisa, e a devoção ao momento, o desapego das coisas todas menos da diversão, a fuga em expressões soltas no meio das frases virariam tema de outra crônica, quem sabe, outra parte do zodíaco.

A verdade é que eu quero continuar Aquário, porque tem mudanças que melhor nem [já basta Mike Brown, outro astrônomo, ter matado Plutão em 2005, obrigando astrólogos e servidores do cosmos em geral a rever as configurações da vida e as características do mundo]. Tem mudanças, como as cobranças, os apegos, o peso, as saudades, as ausências, os radicalismos de qualquer tipo e o excesso de refrigerante, que melhor nem.

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