da série leituras

aspasParis dos Homens de Boa Vontade
por Carmélia Maria de Souza

Modéstia à parte, sem querer humilhar ninguém, acho que sou das poucas pessoas verdadeiramente dignas de merecer Paris. No meu entender, não existe nada mais destrambelhado neste mundo de Deus do que um milionário visitando a Cidade Luz.

O bicho, se for o caso de passara lá quinze dias, certamente deverá comprar, no ato, um luxuoso apartamento na Place Vendôme, só para esnobar. Ao entrar num bistrot, jamais pedirá modestamente um sanduíche e é bem capaz de comprar logo umas caixas de Moët & Chandon – que é pra mostrar que está com a nota.

Isso acontece porque as pessoas que têm dinheiro se esquecem de ter também um pouco de sensibilidade. E se esquecem, inclusive, de que Paris é uma cidade feita para deslumbrar a gente e não para que a gente pretenda que ela se deslumbre diante de nós.

Uma cidade para as pessoas de boa vontade, nada mais. Onde a gente se sinta livre para amar, para sorrir, para cantar todas as canções de amor que souber, de Aznavour e Piaf até este louco e jovem Jacques Brel.

Paris – que eu gostaria de dividir inteirinha com as pessoas do meu amor, atravessando com elas, de mãos dadas, todas as pontes de minha preferência: de la Concorde, des Arts, de Solférino, le Pont Neuf… E de noite, sob o céu de outono, nós nos sentaríamos à beira das calçadas, abraçados, para depois ir chorar nossas mágoas de saudades e de amor, misturando nossas lágrimas com as águas tristes do Sena.

Paris – no final da tarde, quando eu estaria voltando para o meu quarto modesto de pensão, depois de comprar meus vinhos e meus queijos, talvez um ou dois livros, o último sucesso de Brel ou Brassens e aí então me sentar para escrever minhas cartas, até um momento, quando chegasse a hora de voltar: o coração partido ao meio, o dinheiro chegado ao fim, o retorno se impondo a mim, com um sabor de injusta condenação.

Ser encantadoramente pobre e profundamente brasileira nas ruas de Paris. Não saber atravessar uma avenida, falar um francês de ginásio, viver humildemente, mas viver intensamente, na paisagem eterna de Paris. Habitar um cômodo despretensioso, sem luz e sem horizontes, mas onde as manhãs me venham despertar e me fazer sentir uma vontade doida de viver e cantar, simplesmente porque descobri, na noite anterior, em Paris, “la vie em rose”.

Paris do meu sonho. Do meu canto e do meu riso. Paris do meu amor e do meu perdão. Ambos perecíveis. Paris tão minha, sem saber que é minha. Sem saber o quanto eu tenho sondado e esperado pelo dia em que chegarei à sua praça mais bonita, com o meu amor me levando pela mão e no coração uma doce vontade de para sempre ficar. Nesta praça, onde meus olhos olharão para os olhos de quem amo, e neles rezarão a oração da fidelidade.

Paris para toda vida, e um momento, quando eu me souber misturada aos fantasmas azuis do final de sua noite, esmagada pela poesia de Jacques Prevert, perdoada pela luz das estrelas e embalada por uma canção eterna de Aznavour ou Piaf. A canção e a noite de Paris, que nunca amanhecem, nunca silenciam, nunca se negam ou morrem.

E alguém, porque estarei em Paris, me cantará baixinho:

Ne me quitte pas.
Ne me quitte pas.
Ne me quitte pas.
Mon amour…

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4 comentários sobre “da série leituras

  1. Eu amo a França! Paris então… Ah, qts lembranças. Faço parte do grupo que gosta de descobrir os lugares inusitados das cidades e Paris definitivamente é cheio desses lugares.
    Vai minha dica:
    Shekespeare and Company. Andei muito para achá-la, mas se você achar a Notre Dame você encontrará essa livraria (única e maravilhosa); também encontrará Sain-Michel que vale muito a visita; poderá conhecer ou mesmo se hospedar no Hotel du Levant e finalmente almoçar no restaurante La Cour de la Huchette. Nesse local também fica a La rue du Chat-qui-Pêche (imperdível). Tomar chocolate quente no Café des Deux Moulins (não tem preço), local no qual Amelie trabalhava de garçonete localizado no bairro de Montmartre.
    Ah … Paris, Je T’Aime!

  2. Sem pensar duas vezes, a cidade mais fascinante que conheci. Lembro de ter o horizonte sempre visível, as ruas sempre disponíveis, o coração sempre leve. Tinha cheiro, sabor e textura de amor, paixão, carinho, fuga e sonho. Andei, andei e andei sem mesmo perceber o quanto havia andado – porque não se percebe mesmo, quando vemos Paris já traçou nossa rota.

    Engraçado que, ao lembrar disso tudo, sempre fico com os olhos rasos, úmidos. Paris me deu a dimensão do espírito humano impetuoso, desbravador, despretensiosamente capaz das maiores e melhores artes. No que o gesto banal de tomar um café está carregado de simbolismos.

    E, sem medo do clichê, está na cara de quem vai lá que Paris é a cidade pra quem tem o coração aos saltos de paixão.

    Texto foda esse.

    Brigadu, Ana.

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