primeiro

De repente era, outra vez, hora de listar projetos, medir planos, enumerar metas, embalar sonhos com música e chocolate e fazer orações ao bom Deus para que fizesse as presenças mais constantes, tornasse as ausências mais amenas, perdoasse os deslizes, descontasse as faltas e instaurasse de uma vez por todas o equilíbrio amém.

Era, outra vez, hora de organizar as estantes, as gavetas e a contabilidade, viver as madrugadas de outro modo, pedir ao tempo que trouxesse o encantamento de volta e então, como antes, alimentar a crença na lei natural dos encontros, deixar um tanto e receber outro, no corredor do trabalho quando menos espera, no bar da esquina na noite mais morna da semana, de dia ou na madrugada silenciosa.

De repente era, outra vez, hora de arrumar as panelas, pintar as unhas, trocar as plantas de lugar (e as zamioculcas em vasos maiores, para que crescessem ainda um pouco) e fazer orações ao bom Deus para que protegesse os queridos, suavizasse as discórdias do mundo e diminuísse o volume das chuvas amém.

Era, outra vez, hora de dobrar as cobertas, abrir as janelas, viver as manhãs e as tardes de outro modo, pedir ao tempo que suavizasse os afetos não correspondidos e enviasse outros, inteiros, e então, como antes, voltar a acreditar na arte da felicidade.

Era, outra vez, hora de olhar em retrospecto, filmes, discos, livros e um mundo inteiro descoberto ou revisto, Alice e o não saber que caminho escolher, o ator e sua alma de grão de bico, 35 Doses de Rum e os trens para os quais nunca estamos preparados, o Canções para Embalar Marujos e os de sempre, Chico, Roberto, Caetano, Gil, Tom, Paulinho e Jorge, sem mais, nem pra depois.

De repente era também o Rubem e os escritos dele (e no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir), o Gabito e a revelação de que luta fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence (sei exatamente como é) e as quatro questões fundamentais da vida: 1) Quem sou? 2) De onde venho? 3) Pra onde vou? 4) Quem é que vai lavar a louça?

Era (é), mais que tudo e além das revisões, hora de seguir rumo ao futuro, mês novo, ano novo, um dia depois o outro, 31 e depois mais, aniversário, carnaval, outono, mentira, férias, frio, festa da cidade, Natal e tudo de novo, listar projetos, medir planos, enumerar metas, embalar sonhos, pedir a Deus, organizar as gavetas, trocar as plantas de lugar (e as zamioculcas em vasos maiores ainda), olhar o mundo em retrospecto e seguir.

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