cantar

A frase era certeira:

– Sabe o que você deve fazer quando encontra um monstro?
– Lutar?
– Não. Cantar.

O empresário Sergei Diaghilev tentava acalmar a fúria do compositor Igor Stravinski diante da reação negativa do público na estreia de “A Sagração da Primavera”. Havia vaias e objetos voadores na plateia, brutalidade da Rússia pagã e rito ancestral no palco, palavrões nos dois, um monte deles, ao mesmo tempo, numa noite intensa, provocadora e caótica como alguns amores, determinadas conversas e certas madrugadas.

Estavam em Paris, 1913, Teatro dos Campos Elíseos como o bairro da minha infância, e o mundo devia ser outro, Gandhi preso, palavras cruzadas no jornal, André Breton, Al Capone, Philiphe Thys, Albert Einstein e Adolf Hitler em idades e endereços diversos escrevendo, pensando, sonhando, pedalando, inventando ou arquitetando definições, pequenas ou grandes, que vai saber que influência teriam nas fantasias, contrabandos, vitórias, teorias e atrocidades que viriam em seguida.

Meio século depois, na conta exata, Carlos Lyra e Vinícius de Moraes fariam o que Sergei Diaghilev defendia que se deve fazer diante de um monstro, com sua uma marcha-rancho em tom menor com sétima contra o fim do carnaval. Eles cantavam contra o silêncio imposto (são os piores, não?), contra as saudades, o fim da felicidade e as cinzas que, ao que tudo indica, previam a censura, a tortura e o terror que viriam a partir do ano seguinte.

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade…

Estavam no Brasil, 1963, Chico Buarque na faculdade de Arquitetura, Casinha Pequenina nos cinemas, Ieda Vargas no Miss Universo, um olé nos argentinos em pleno Maracanã e, em disputas e endereços diversos, Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Flamengo vitoriosos (e amanhã dizem que vai ser o Fluminense), música, cinema, beleza, drible e campeonato que vai saber que influência tiveram nas vozes, nos encontros, nos padrões e nos sorrisos daqueles dias.

Canções, quando a gente ouve e ainda mais quando canta, ajudam a enfrentar o escuro, a falta de sensibilidade, a guerra, a ditadura, o caos e as injustiças. São letra, ritmo, harmonia e melodia a serviço do afeto, da doçura e da arte de amenizar a saudade que não tem fim, a ausência que insiste em ser ausência, a dor que igualmente não acaba, que resiste às estações, uma depois da outra, até qualquer dia, em outro compasso, em outro tom, em outro tempo.

[Crônica publicada no jornal A Gazeta neste sábado]

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4 comentários sobre “cantar

  1. Engraçado e curioso como qualquer referência ao tema “tempo” me atrai nos dias de hj. Essa relação local-tempo, então… Ainda mais quando não sabemos direito o que estamos fazendo no lugar em que estamos.

    E sim, o Fluminense foi o campeão. 🙂

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