feriado, oba

“Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado Preguiça. Constava do título e de duas belas colunas em branco, com minha assinatura no fim. Infelizmente, não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária. Já viram desconfiança igual? Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura […]”.

Mario Quintana, Da Preguiça como Método de Trabalho

e por falar em rubem braga…

“Dizem que o mundo está cada dia menor. É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais. Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.”

[Trecho da crônica Sobre o Amor, Etc., 1948]

das coisas que realmente importam

Era essencial entender as histórias que eles contavam, ouvir as canções que eles cantavam, olhar as rugas que carregavam e que diziam, também, sobre histórias e sobre canções, sobre amores perdidos ou quem sabe um romance para a vida inteira, sobre um filho que partiu antes do que devia ou quem sabe a família toda ao redor da mesa, sobre a derrota no futebol ou quem sabe uma alegria.

[Um café, um sorriso, um texto bem escrito, uma descoberta, uma resposta, um convite, um disco inteiro do Geraldo Pereira, brigadeiro de colher, cinema, boteco, a madrugada sem despertador no dia seguinte, sonho, Paris, Nova York, livro, travesseiro, cheiro de amêndoa no cabelo, um encontro, uma alegria enfim].

Era essencial diminuir o ritmo, acertar o movimento, ajeitar o andamento, um intervalo depois do outro e quem sabe uma pausa da semínima, como se aquela terça-feira à noite de trabalho e cansaço fosse um sábado de sol, feira, planta, faxina, família ou o poema do Vinicius, “não há nada como o tempo para passar foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal” amém.

Era essencial estar ali, aprender um pouco além dos livros, encontrar um mundo diferente do habitual, reconhecer o esforço alheio de não desistir apesar das provas em contrário, pedir de novo apesar das recusas, sonhar de novo apesar das expectativas desfeitas, voar de novo apesar das quedas, insistir em nome de uma vontade maior ou quem sabe uma alegria.

[Nutella, esperança, samba, sereno, caipirinha de melancia, bicicleta na praia, um disco inteiro dos Beatles, uma semana toda sem dores na coluna, amigos de verdade, violão e cantar desafinado, os jornais do final de semana espalhados pelo chão, aquela presença silenciosa, suave e distante, uma alegria enfim].

Era essencial como as coisas que realmente importam, um olhar sincero, algum conforto, música boa, aprender, sorrir, acreditar, sonhar, ouvir, dançar, uma casa inteira de livros e discos e a horta vigorosa feita de manjericão, sálvia, hortelã, erva cidreira e nada de coentro [eca].

Era essencial como aquela sensação boa que começa na ponta do dedo e toma o corpo inteiro, coração e cérebro especialmente, e ainda os braços, o tronco, as maçãs do rosto, os dedos, as pernas, tudo. Era essencial como as coisas que realmente importam, honestidade, sinceridade e, sempre que possível, simplicidade, movimento, abraço, planos para o futuro, óculos para longe, silêncio, gargalhadas, encontros e reencontros.

Era como são, também, canções e colo, desapego, estrada, chocolate, afetos e, se ainda assim for preciso, a possibilidade redentora de sentar e chorar diante das expectativas desfeitas.

cantar

A frase era certeira:

– Sabe o que você deve fazer quando encontra um monstro?
– Lutar?
– Não. Cantar.

O empresário Sergei Diaghilev tentava acalmar a fúria do compositor Igor Stravinski diante da reação negativa do público na estreia de “A Sagração da Primavera”. Havia vaias e objetos voadores na plateia, brutalidade da Rússia pagã e rito ancestral no palco, palavrões nos dois, um monte deles, ao mesmo tempo, numa noite intensa, provocadora e caótica como alguns amores, determinadas conversas e certas madrugadas.

Estavam em Paris, 1913, Teatro dos Campos Elíseos como o bairro da minha infância, e o mundo devia ser outro, Gandhi preso, palavras cruzadas no jornal, André Breton, Al Capone, Philiphe Thys, Albert Einstein e Adolf Hitler em idades e endereços diversos escrevendo, pensando, sonhando, pedalando, inventando ou arquitetando definições, pequenas ou grandes, que vai saber que influência teriam nas fantasias, contrabandos, vitórias, teorias e atrocidades que viriam em seguida.

Meio século depois, na conta exata, Carlos Lyra e Vinícius de Moraes fariam o que Sergei Diaghilev defendia que se deve fazer diante de um monstro, com sua uma marcha-rancho em tom menor com sétima contra o fim do carnaval. Eles cantavam contra o silêncio imposto (são os piores, não?), contra as saudades, o fim da felicidade e as cinzas que, ao que tudo indica, previam a censura, a tortura e o terror que viriam a partir do ano seguinte.

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade…

Estavam no Brasil, 1963, Chico Buarque na faculdade de Arquitetura, Casinha Pequenina nos cinemas, Ieda Vargas no Miss Universo, um olé nos argentinos em pleno Maracanã e, em disputas e endereços diversos, Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Flamengo vitoriosos (e amanhã dizem que vai ser o Fluminense), música, cinema, beleza, drible e campeonato que vai saber que influência tiveram nas vozes, nos encontros, nos padrões e nos sorrisos daqueles dias.

Canções, quando a gente ouve e ainda mais quando canta, ajudam a enfrentar o escuro, a falta de sensibilidade, a guerra, a ditadura, o caos e as injustiças. São letra, ritmo, harmonia e melodia a serviço do afeto, da doçura e da arte de amenizar a saudade que não tem fim, a ausência que insiste em ser ausência, a dor que igualmente não acaba, que resiste às estações, uma depois da outra, até qualquer dia, em outro compasso, em outro tom, em outro tempo.

[Crônica publicada no jornal A Gazeta neste sábado]