encontros e assimetrias

Encontros são uma arte engraçada. Os melhores, quase sempre, preenchem momentos inesperados, têm figurinos impróprios e ocupam endereços improváveis. Acontecem no corredor do trabalho quando a gente menos espera, no bar da esquina na noite mais morna da semana, na madrugada silenciosa que separa um expediente difícil de outro ainda mais, de vestido velho, cabelo desarrumado, olheira profunda, unha por fazer, cansaço ou pressa, todos ao mesmo tempo, e supostamente no lugar errado, coitados.

[Ou vai ver é a gente que vive períodos mais ou menos disponíveis a esbarrar quando não planeja, embora queira; a enxergar com mais frequência presenças que sempre estiveram ali mesmo que não pareça; a alimentar conversas que sorriem durante e depois, independente do tema, se chuva ou o passado, se acordar cedo ou o amor por cachorros, se o transtorno do Rei ou os parênteses grandes além da conta].

Vai ver tem relação com o fato de a vida ser a arte do encontro, apesar dos tantos desencontros que existem pela vida, como o samba ensinou que seria, em 1962, ano da conjunção de Lua, Sol, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, da vitória de Anselmo Duarte no Festival de Cannes, da morte de Hermann Hesse e sua mania, descoberta anos depois, de dar a oportunidade, o espírito e a chave para que a gente descubra o que fazia tempo estava ali, dentro da gente mesmo.

Vai ver tem relação com a ideia que o físico professor astrônomo poeta defendeu no domingo, a de que chegou a hora de esquecer a tese de que a beleza e a verdade têm de ser simétricas. Ele explica que Deus, Einstein e boa parte dos crentes e dos matemáticos que vieram depois viam as coisas como construções matemáticas de partículas e, cada um ao seu modo, tinham fé na unidade de todas as coisas. Viam, e tinham. O desafio agora – ele acredita, eu também – passou a ser outro, o de criar uma nova estética para a ciência baseada em assimetrias, não no seu oposto.

Porque o mundo, senhoras e senhores, é torto, desconforme, desproporcional e – tomara, Deus – um bocado assimétrico.

Ele escreve, se entendi direito, que as imperfeições estão por trás das estruturas que encontramos no Universo, da origem da matéria ao início da vida, da evolução das espécies à sobrevivência diária minha, sua e de todos nós. Ressalta que tem certeza de que a Física precisa de simetrias e deve continuar a usá-las em suas pesquisas. Mas derruba a tese segundo a qual Deus criou o mundo da forma mais perfeita.

Defende, portanto, a imperfeição como parte do mundo, e talvez seja possível concluir que determinadas desconformidades encostam na ciência, na arte, nos encontros, nos diálogos e na vida toda de modo tão decisivo quanto a métrica e a rima dos versos perfeitos. Talvez seja possível concluir que elas expliquem, até, certas teses, algumas pinturas, literaturas, teatros e canções, boa parte dos encontros e um pouco da vida toda.

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17 comentários sobre “encontros e assimetrias

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