da arte de fabricar e jogar bumerangues

Bumerangues são mais ou menos o seguinte: um dia, um habitante de uma tribo antiga da Europa – ou então foram os aborígenes da Austrália, os faraós do Egito ou os arqueólogos da Polônia – inventou um objeto de arremesso milimetricamente cortado numa forma muitíssimo específica capaz de voltar ao lugar de seu lançamento. Seu objetivo era simples como o desejo daquela noite, e bastava mandá-lo ao infinito e além, como Buzz Lightyear, para que ele fosse e, naturalmente, voltasse.

Metáforas são mais ou menos o seguinte: um dia, um filósofo do período socrático – ou então foram os trovadores da Idade Média, os poetas de depois ou o linguista francês que deu significado às palavras e às coisas -determinou que todas as histórias, das simples às complexas, podiam ser explicadas por comparações, alegorias ou analogias. Sua intenção era bonita como aquele sorriso, e bastava pensar um pouco para encontrar numa canção, num filme, no futebol ou no trânsito a razão daquela atitude, daquele silêncio, da distância que nem todo o amor do mundo consegue reverter, das indecisões alheias, de quase tudo.

Os bumerangues têm uma maneira curiosa de fabricação, tanto os de asas simétricas quanto os com cara de ponto de interrogação e os com uma asa maior que a outra. São feitos em madeira, PVC, fenolite, celeron, fibra de vidro e fibra de vidro reforçada com carbono a partir de moldes com nome estranho como Arakatu, OTTO, Mong, Aissô, Swallow e CC15, e exigem atenção extra na hora no cálculo dos bordos de ataque e de fuga, do corte, da lixa e, finalmente, da secagem.

As metáforas, igualmente, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem de acordo com regras próprias, e pedem cuidado extra no momento de saber se servem ou não para sustentar uma comparação, embalar uma alegoria, explicar uma história como aquela, de tanto tempo e a mesma vontade, que as meninas da trupe decidiram tentar compreender com a ajuda dos bumerangues.

Bumerangues, como alguns encontros e determinados sentimentos, são feitos para voltar sempre. Por isso precisam de delicadeza na construção, certeza no acabamento e equilíbrio no arremesso. Bumerangues, como alguns encontros e determinados sentimentos, carregam o cálculo perfeito de velocidade, do peso e da força. São Física pura e talvez também um pouco de Arte. Chova ou faça sol, os bumerangues sempre voltam, até quando deviam cortar cana em outras estâncias.

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