greve à moda de carlinhos oliveira

Tem sido assim nos últimos dias, e vai saber até quando: greve de ônibus e de sol por aqui, greve de sossego por lá, terminal cheio, previsão de tempo ruim, violência de um lado e do outro, tanto confronto que, se estivesse vivo, o católico apostólico romano pagão e filho de Iemanjá Carlinhos Oliveira talvez voltasse a sugerir aquele levante que um dia deu até crônica.

Sua ideia era, digamos deste modo, a de uma greve etílica, tomar um porre caso ninguém amparasse seus coitados, os infelizes prediletos que ele, como a gente também de vez em quando, dava preferência quando quer zangar com o mundo. Se seus queridos desgraçados continuassem queridos e desgraçados, ele danaria a beber e, quando estivesse por cair de álcool e tristeza, gritaria a uma autoridade:

– Doutor, meus pobres estão morrendo; um menino no morro da Fonte Grande não tem comida; uma viúva em Maruípe está com o corpo cheio de perebas, e não tem onde se tratar; oitenta famílias de Jucutuquara, doutor, famílias de operários e contínuos de repartição pública chegam ao fim do mês com meio quilo de farinha e nada mais; aquilo tem que dar até o dia do pagamento. É por causa disso que eu bebo. Se eles não forem auxiliados, não pararei de beber nunca mais.

Então vai ver o brasileiro por fatalidade, temperamento e vocação Carlinhos Oliveira [que a bem da verdade não precisava de grandes pretextos para beber] bebesse ainda mais nestes dias. Por amor e convicção, por todos, por todo o tempo que fosse preciso e em nome da paz que anda faltando nos últimos dias, e vai saber até quando.

encontros e assimetrias

Encontros são uma arte engraçada. Os melhores, quase sempre, preenchem momentos inesperados, têm figurinos impróprios e ocupam endereços improváveis. Acontecem no corredor do trabalho quando a gente menos espera, no bar da esquina na noite mais morna da semana, na madrugada silenciosa que separa um expediente difícil de outro ainda mais, de vestido velho, cabelo desarrumado, olheira profunda, unha por fazer, cansaço ou pressa, todos ao mesmo tempo, e supostamente no lugar errado, coitados.

[Ou vai ver é a gente que vive períodos mais ou menos disponíveis a esbarrar quando não planeja, embora queira; a enxergar com mais frequência presenças que sempre estiveram ali mesmo que não pareça; a alimentar conversas que sorriem durante e depois, independente do tema, se chuva ou o passado, se acordar cedo ou o amor por cachorros, se o transtorno do Rei ou os parênteses grandes além da conta].

Vai ver tem relação com o fato de a vida ser a arte do encontro, apesar dos tantos desencontros que existem pela vida, como o samba ensinou que seria, em 1962, ano da conjunção de Lua, Sol, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, da vitória de Anselmo Duarte no Festival de Cannes, da morte de Hermann Hesse e sua mania, descoberta anos depois, de dar a oportunidade, o espírito e a chave para que a gente descubra o que fazia tempo estava ali, dentro da gente mesmo.

Vai ver tem relação com a ideia que o físico professor astrônomo poeta defendeu no domingo, a de que chegou a hora de esquecer a tese de que a beleza e a verdade têm de ser simétricas. Ele explica que Deus, Einstein e boa parte dos crentes e dos matemáticos que vieram depois viam as coisas como construções matemáticas de partículas e, cada um ao seu modo, tinham fé na unidade de todas as coisas. Viam, e tinham. O desafio agora – ele acredita, eu também – passou a ser outro, o de criar uma nova estética para a ciência baseada em assimetrias, não no seu oposto.

Porque o mundo, senhoras e senhores, é torto, desconforme, desproporcional e – tomara, Deus – um bocado assimétrico.

Ele escreve, se entendi direito, que as imperfeições estão por trás das estruturas que encontramos no Universo, da origem da matéria ao início da vida, da evolução das espécies à sobrevivência diária minha, sua e de todos nós. Ressalta que tem certeza de que a Física precisa de simetrias e deve continuar a usá-las em suas pesquisas. Mas derruba a tese segundo a qual Deus criou o mundo da forma mais perfeita.

Defende, portanto, a imperfeição como parte do mundo, e talvez seja possível concluir que determinadas desconformidades encostam na ciência, na arte, nos encontros, nos diálogos e na vida toda de modo tão decisivo quanto a métrica e a rima dos versos perfeitos. Talvez seja possível concluir que elas expliquem, até, certas teses, algumas pinturas, literaturas, teatros e canções, boa parte dos encontros e um pouco da vida toda.

da série releituras

Despedida
por Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

da arte de fabricar e jogar bumerangues

Bumerangues são mais ou menos o seguinte: um dia, um habitante de uma tribo antiga da Europa – ou então foram os aborígenes da Austrália, os faraós do Egito ou os arqueólogos da Polônia – inventou um objeto de arremesso milimetricamente cortado numa forma muitíssimo específica capaz de voltar ao lugar de seu lançamento. Seu objetivo era simples como o desejo daquela noite, e bastava mandá-lo ao infinito e além, como Buzz Lightyear, para que ele fosse e, naturalmente, voltasse.

Metáforas são mais ou menos o seguinte: um dia, um filósofo do período socrático – ou então foram os trovadores da Idade Média, os poetas de depois ou o linguista francês que deu significado às palavras e às coisas -determinou que todas as histórias, das simples às complexas, podiam ser explicadas por comparações, alegorias ou analogias. Sua intenção era bonita como aquele sorriso, e bastava pensar um pouco para encontrar numa canção, num filme, no futebol ou no trânsito a razão daquela atitude, daquele silêncio, da distância que nem todo o amor do mundo consegue reverter, das indecisões alheias, de quase tudo.

Os bumerangues têm uma maneira curiosa de fabricação, tanto os de asas simétricas quanto os com cara de ponto de interrogação e os com uma asa maior que a outra. São feitos em madeira, PVC, fenolite, celeron, fibra de vidro e fibra de vidro reforçada com carbono a partir de moldes com nome estranho como Arakatu, OTTO, Mong, Aissô, Swallow e CC15, e exigem atenção extra na hora no cálculo dos bordos de ataque e de fuga, do corte, da lixa e, finalmente, da secagem.

As metáforas, igualmente, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem de acordo com regras próprias, e pedem cuidado extra no momento de saber se servem ou não para sustentar uma comparação, embalar uma alegoria, explicar uma história como aquela, de tanto tempo e a mesma vontade, que as meninas da trupe decidiram tentar compreender com a ajuda dos bumerangues.

Bumerangues, como alguns encontros e determinados sentimentos, são feitos para voltar sempre. Por isso precisam de delicadeza na construção, certeza no acabamento e equilíbrio no arremesso. Bumerangues, como alguns encontros e determinados sentimentos, carregam o cálculo perfeito de velocidade, do peso e da força. São Física pura e talvez também um pouco de Arte. Chova ou faça sol, os bumerangues sempre voltam, até quando deviam cortar cana em outras estâncias.