os três cérebros

A pergunta então passou a ser outra: a razão serve de alguma coisa nos dias [e respectivas madrugadas] em que o coração quer tudo, inclusive o que não deve?

Os jacarés [tudo indica] são incapazes de amar ou odiar, e também não pensam. Os caramujos escorregam, trabalham devagar, carregam a casa nas costas e, igualmente, querem apenas viver. As girafas e seu número par de dedos, sete vértebras cervicais e sistema vascular ultrapotente eu não sei, mas imagino que sigam de modo parecido, como ainda as araras, os rinocerontes, os búfalos, as gazelas, os coelhos, as marmotas, as tarântulas, as vacas, as zebras, os leopardos, os lobos e os leões.

Os seres humanos, ao contrário, querem, pensam e sentem, com o cérebro dividido em três partes, objetivos diferentes e formas complementares. O sistema reptiliano, herança dos crocodilos e dos dinossauros, tem funções inteiramente ligadas aos instintos de sobrevivência física, comer, guardar energia, esconderijo, fuga, impulso sexual e manutenção da espécie. O sistema límbico manda nos sentimentos e nas emoções; estão na conta dele a capacidade humana, mais ou menos elástica, de amar, odiar, ter medo, raiva, saudade, prazer, ambição ou ciúmes.

O córtex cerebral é um tanto além: ali, naquela camada que envolve o cérebro, vivem os neurônios e operam [na casca do pensamento e com algumas exceções] a lógica, a teoria e a razão.

A explicação é de um educador de cabelos grisalhos e sobrenome árabe que, certa vez, como eu, você e quase todo mundo, caiu de amores pela pessoa errada, ele com os valores dele, ela com os valores dela, estilo de vida de um descombinado com o estilo de vida do outro, de um jeito mais prático e bem menos poético que o funcionário e a dançarina.

[O amor deles é tão bom. O horário é que nunca combina].

Ele diz que o amor não se resume ao sistema límbico, aquela camada intermediária superior aos instintos e inferior ao pensamento. O amor contamina – palavras dele – também todo o cérebro, tanto o espaço primitivo em que resolvemos a fome e o desejo quanto o espaço racional onde fazemos contas no final do mês [ou antes], decidimos por uma casa ou um carro, resolvemos pelo fim ou pela sequência, por ficar ou por partir, por dizer ou nem, esperar que o outro entenda o discurso do silêncio e simplesmente esteja.

Daí, da colaboração entre o pensamento e o sentimento, as coisas nascem, crescem, mudam, voltam, com mais ou menos sucesso, mais ou menos vontade, mais ou menos peso, mais ou menos estabilidade [e vai ver o guru daquele filme tem razão, e o desequilíbrio do amor precisa existir para o equilíbrio da vida].

Daí, da colaboração entre a lógica e os afetos, a felicidade instala suas malas e cuias, de mansinho como naquela noite depois do teatro ou o contrário, de supetão, no dia em que o cabelo, as unhas e o vestido estão despreparados, descascados, desgrenhados, e fica até vai saber quando.

[Crônica publicada neste sábado em A GAZETA]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s