leitura para uma noite de vento frio

Crônica com Endereço Certo
Carmélia Maria de Souza, fevereiro de 1968

Além do mais, Dindi, este é um momento dos mais importantes e de coisas graves. Não adianta dizer que a vida não passa disto mesmo o tempo todo – sei que isto não vai consolar, não vai servir para nada.

Acontece, porém, que não saberei falar outra coisa, eu nunca soube falar as coisas que deveria falar – você me conhece bem, você sabe como sou imbecil, tímida, completamente desajeitada. Nunca soube comprar uma roupa para mim e estou ficando cada dia mais desorganizada nessa questão de objetos, pessoas, correspondências, horários. Sou, enfim, sou uma pessoa distraída e tresloucada, um caso perdido, uma pobre diaba.

Viver, para a pessoa que eu sou hoje em dia, é esta aflição imutável, é este desespero de perder tudo, de repente descobrir que tudo voltou aos devidos lugares. Este viver de abrir os braços e dar a impressão muito falsa de que estou sempre preparada para o que der e vier. No fundo, você sabe, sou medrosa e covarde como o diabo. E embora não pareça, tenho a alma atormentada e não me conformo com nada. Não sou, portanto, a pessoa indicada para estar ao seu lado neste momento – você escolheu a companhia completamente errada.

Todavia, não irei embora. Vou agüentar firme aqui mesmo, enquanto puder e você me quiser perto, assim como estamos agora.

Falar mesmo a verdade, eu só sei andar por aí, viver às escâncaras, beber vinho, nunca ter dinheiro e falar das minhas saudades. Adoro, Dindi, estas ruas da noite, este silêncio – você acertou, quando disse que eu era a primeira dama da madrugada. Foi na madrugada que aprendi a amar muitas coisas. Que aprendi a distância que existe entre uma flor e uma estrela e, ao mesmo tempo, a hora de as trazer reunidas, por causa do momento que lhes deu o mesmo significado.

Não me ensinaram a falar palavras que consolem, todavia, é neste momento que eu sofro imensamente por não saber dizer a você, aquilo que você tanto precisa ouvir. Me lembro, inclusive, de um momento muito antigo, daquela tarde de setembro, quando eu deveria ter dito sim e disse sim… Quando deveria ter feito o gesto que não fiz e fiquei em silêncio, vendo tudo se perder.

Mas vou tentar alguma forma de acertar desta vez com você. Vou lhe pedir para não se preocupar com estas bobagens que tanto preocupam você. Vou procurar convencer você de que o drama não chega a ser drama, por que é que você vive assim? Não ligar, Dindi, ainda é a melhor solução.

Se isto puder servir de algum consolo, saiba que, enquanto for preciso, eu estarei sempre aqui. É bem verdade que tenho a alma esbagaçada e venho de muita dor. Mas me sinto contente, apesar da poeira desta estrada triste e comprida de onde vim, me sinto contente, porque ela me trouxe até você – você, criança eterna e querida, em cujos olhos ainda amanhece todos os dias. E por mais que eu chegue tarde a estas manhãs, por mais que eu traga as minhas culpas e as minhas dores nestas mãos, aqui continuará sendo dia e eu também poderei ser criança alguma vez, com o meu vestido cor-de-rosa, como se fosse sempre domingo.

Não sofra tanto. É domingo.

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7 comentários sobre “leitura para uma noite de vento frio

  1. Belíssimo texto, Ana.

    Tive a chance de beber no centro (numa esquina da Gama Rosa), ali no famoso Britz Bar, provavelmente o reduto preferido dela nas madrugadas.

    Ela era, ali, uma lenda.

    Isso na década de 80, pelo menos. Hoje não sei a quantas anda a memória coletiva a respeito dela.

    O “Britz Bar”, na esquina da Rua Gama Rosa

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