a história e as histórias

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

Primeiro li a pergunta provocadora num texto de jornal. Depois vi “Bobby”, filme que inspirou pergunta e texto e que reconta o assassinato do senador Robert Kennedy, em 1968, a partir das histórias individuais de uma telefonista solitária, uma cantora alcoólatra e decadente que inferniza a vida do marido, um ingênuo ajudante de cozinha que sonha com o beisebol, um casal que tenta reconstruir seus pedaços, uma jovem que se casa com um quase desconhecido para salvá-lo do Vietnã, um moço idealista, um velho nostálgico, uma mulher traída.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

No dia 11 de setembro de 2001, lá pelas dez e pouco da manhã, eu conversava sobre o amor e o futuro quando uma colega do jornal telefonou avisando que tinham explodido as Torres Gêmeas. A distância e de uma maneira meio torta, vivi a História no meio da história, a do mundo no meio da minha, terrorismo e café da manhã, Bin Laden e os conhecidos que estavam em Nova York, bombeiros nos escombros e lista de filmes-catástrofe para a edição extra, tudo ao mesmo tempo, àquela hora.

Em 2007, nos últimos dias de julho, eu regava e podava a minha árvore da felicidade quando Fidel Castro anunciou que, depois de 47 anos no poder, deixaria o governo de Cuba nas mãos do irmão para se tratar de um câncer no intestino. Em maio de 2003, enquanto o Comandante viajava para a Argentina para assistir à posse do colega Néstor Kirchner, eu via aquela Cuba de perto, mojitos, charutos, Tu Cola, utopias e contradições.

Em 24 de março de 1991, quando Ayrton Senna deu sete voltas na pista molhada sem tirar da sexta marcha e ganhou o trágico Grande Prêmio do Brasil, eu estava na casa da minha irmã olhando a corrida na TV. Ainda havia alguma graça em ver a Fórmula 1 aos domingos, Riccardo Patrese, Gerhard Berger e Alain Prost ainda corriam, Nelson Piquet ainda tinha carteira de habilitação e minha sobrinha, antes da nossa comemoração histérica, ainda dormia incansavelmente como dormem incansavelmente os bebês de três meses. Quando Senna morreu, assistimos outra vez pela televisão; desta vez era minha outra irmã quem chorava.

Lula virou presidente no dia 6 de outubro de 2002, alimentando a esperança de anos e anos e anos; eu vesti a camisa vermelha e saí por aí, em festa, sem a menor ideia da desilusão que viria depois, das crises políticas, das crises aéreas, das crises existenciais, todas. Não lembro o que fazia quando houve o Tsunami e o Katrina, mas sei que passava férias em Londres quando o PCC promoveu aquela onda de ataques em São Paulo. Lá, por causa das experiências deles com o terrorismo, não há lixeiras nas ruas, para que não haja lugares públicos para bombas privadas.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

O autor do texto de jornal e da pergunta provocadora ia sair com o melhor amigo em Milão quando soube que haviam matado o outro Kennedy, John, em novembro de 1963, em Dallas, Texas, por volta do meio-dia de uma sexta-feira; no começo de abril de 1968, quando a vítima foi Martin Luther King, conhecia os sogros; em fins de agosto, quando os tanques soviéticos ocuparam Praga, estava num barzinho no porto de Panarea, na Sicília.

Meu amigo estava na sala do avô quando o Muro de Berlim caiu, fazia redação na escola quando Kurt Cobain resolveu que não queria mais viver, voltava para casa de carona com a mãe de um colega quando ouviu Smells Like Teen Spirit no rádio pela primeira vez. Era 1991, mas ele lembra como se fosse ontem:

– Ela me deixou umas duas quadras antes da minha casa, onde hoje tem um prédio gigante e na época era uma casa e um cachorro quente no térreo. Eu saí do carro, parei na calçada e não andei e fiquei pensado, absolutamente transtornado: ‘De que planeta veio isso?’. Depois, fui pra casa cantando aquele refrão grudento.

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2 comentários sobre “a história e as histórias

  1. Adorei !!!. Me lembro muito bem de muitos fatos importantes para nós, brasileiros: As vitórias do Brasil nas copas de 1994 e 2002; os dias das mortes do Raul Seixas, Cazuza, Renato Russo e Cassia Eller; o impeachement, ou renúncia, do Collor e , é claro, a posse do presidente Lula, que foi eleito em 26 de outubro de 2002 ( e não 06 de outubro). Será que tô ficando velho???

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