insistir, desistir

Como saber sobre a hora de desistir? Até que ponto é preciso ir para se convencer de que melhor deixar pra lá, fechar a porta, largar o osso, encerrar o expediente, dizer não sem voltar atrás? Como, ao contrário, acreditar que ainda deve tentar, pedir de novo apesar das recusas, sonhar de novo apesar das expectativas desfeitas, voar de novo apesar das quedas? Quando as possibilidades acabam e as insistências deixam de ser razoáveis para virar loucura? Em que dia, em que endereço, no meio de um almoço à beira-mar ou na volta do trabalho, enquanto cozinha ou na hora do banho, quando como onde por que a gente descobre, simplesmente, que não pode mais?

A geografia [ou vai ver é a publicidade] diz que a gente não deve desistir nunca, alegria apesar das adversidades, samba apesar da tristeza, otimismo apesar do salário mínimo, futebol apesar das perdas, carnaval sempre que possível, sorrisão, jeitinho, ginga e movimento apesar dos pesares, antropólogos, psicólogos, cientistas políticos e sociólogos reunidos em torno da mesa para estudar o significado de ser brasileiro e a descoberta de que brasileiro não desiste nunca.

A música diz coisa parecida, que não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo, enquanto a gramática determina que desistir é um verbo regular, oito letras, três sílabas e a grafia ritsised quando posto ao contrário. A química tem lá, listadinhos, os hormônios que explicam o desânimo, quantidades, sintomas e riscos de seus excessos e de suas faltas, enquanto, para os Salmos, os Coríntios e o Evangelho de João, desistir significa perder o melhor que Deus tem para oferecer.

Como saber, então, sobre a hora de desistir? Até que ponto é preciso ir para se convencer de que já deu, o caldo entornou, a paciência acabou, a fonte secou, o tempo esgotou? Como, ao contrário, acreditar que ainda compensa, dançar ainda apesar dos tropeços, gostar ainda apesar das faltas, perdoar ainda apesar das descrenças? Quando as chances acabam e esperanças deixam de ser razoáveis para virar estupidez? Em que idade, em que cidade e em qual estação, na sala de estar ou na varanda, no feriado ou na reunião, a gente descobre, simplesmente, que não consegue mais?

Como saber, então, se é coragem ou covardia desistir de uma história, de um encontro, de um amor que não responde ao seu? Como saber se o cérebro tem razão ou quem diz certo é o coração, fica mais um pouco, insiste mais um pouco, tenta mais um pouco ou o contrário, enterra história, encontro, amor e amigo dentro da gente [embora, para o resto do mundo, eles continuem vivinhos da silva], chora e segue? Até quando é possível recomeçar, de outro jeito, com outro espírito, ou quando não, não tem conserto, não tem conversa, não tem perdão?

Em que momento, no quarto ou no terceiro andar, durante a madrugada ou cedinho, quando o sol ainda nem apareceu, enquanto pedala ou no almoço de domingo, quando como onde por que a gente descobre, simplesmente, que acabou? Acabou como o pote de Nutella ontem [delícia], como a energia naquela tarde de chuva, como as esperanças dos torcedores daquele time. Acabou como este texto, à espera de respostas, e ainda sem certezas.

a história e as histórias

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

Primeiro li a pergunta provocadora num texto de jornal. Depois vi “Bobby”, filme que inspirou pergunta e texto e que reconta o assassinato do senador Robert Kennedy, em 1968, a partir das histórias individuais de uma telefonista solitária, uma cantora alcoólatra e decadente que inferniza a vida do marido, um ingênuo ajudante de cozinha que sonha com o beisebol, um casal que tenta reconstruir seus pedaços, uma jovem que se casa com um quase desconhecido para salvá-lo do Vietnã, um moço idealista, um velho nostálgico, uma mulher traída.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

No dia 11 de setembro de 2001, lá pelas dez e pouco da manhã, eu conversava sobre o amor e o futuro quando uma colega do jornal telefonou avisando que tinham explodido as Torres Gêmeas. A distância e de uma maneira meio torta, vivi a História no meio da história, a do mundo no meio da minha, terrorismo e café da manhã, Bin Laden e os conhecidos que estavam em Nova York, bombeiros nos escombros e lista de filmes-catástrofe para a edição extra, tudo ao mesmo tempo, àquela hora.

Em 2007, nos últimos dias de julho, eu regava e podava a minha árvore da felicidade quando Fidel Castro anunciou que, depois de 47 anos no poder, deixaria o governo de Cuba nas mãos do irmão para se tratar de um câncer no intestino. Em maio de 2003, enquanto o Comandante viajava para a Argentina para assistir à posse do colega Néstor Kirchner, eu via aquela Cuba de perto, mojitos, charutos, Tu Cola, utopias e contradições.

Em 24 de março de 1991, quando Ayrton Senna deu sete voltas na pista molhada sem tirar da sexta marcha e ganhou o trágico Grande Prêmio do Brasil, eu estava na casa da minha irmã olhando a corrida na TV. Ainda havia alguma graça em ver a Fórmula 1 aos domingos, Riccardo Patrese, Gerhard Berger e Alain Prost ainda corriam, Nelson Piquet ainda tinha carteira de habilitação e minha sobrinha, antes da nossa comemoração histérica, ainda dormia incansavelmente como dormem incansavelmente os bebês de três meses. Quando Senna morreu, assistimos outra vez pela televisão; desta vez era minha outra irmã quem chorava.

Lula virou presidente no dia 6 de outubro de 2002, alimentando a esperança de anos e anos e anos; eu vesti a camisa vermelha e saí por aí, em festa, sem a menor ideia da desilusão que viria depois, das crises políticas, das crises aéreas, das crises existenciais, todas. Não lembro o que fazia quando houve o Tsunami e o Katrina, mas sei que passava férias em Londres quando o PCC promoveu aquela onda de ataques em São Paulo. Lá, por causa das experiências deles com o terrorismo, não há lixeiras nas ruas, para que não haja lugares públicos para bombas privadas.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

O autor do texto de jornal e da pergunta provocadora ia sair com o melhor amigo em Milão quando soube que haviam matado o outro Kennedy, John, em novembro de 1963, em Dallas, Texas, por volta do meio-dia de uma sexta-feira; no começo de abril de 1968, quando a vítima foi Martin Luther King, conhecia os sogros; em fins de agosto, quando os tanques soviéticos ocuparam Praga, estava num barzinho no porto de Panarea, na Sicília.

Meu amigo estava na sala do avô quando o Muro de Berlim caiu, fazia redação na escola quando Kurt Cobain resolveu que não queria mais viver, voltava para casa de carona com a mãe de um colega quando ouviu Smells Like Teen Spirit no rádio pela primeira vez. Era 1991, mas ele lembra como se fosse ontem:

– Ela me deixou umas duas quadras antes da minha casa, onde hoje tem um prédio gigante e na época era uma casa e um cachorro quente no térreo. Eu saí do carro, parei na calçada e não andei e fiquei pensado, absolutamente transtornado: ‘De que planeta veio isso?’. Depois, fui pra casa cantando aquele refrão grudento.