confiança

O que te faz confiar em alguém? Sorriso na cara, olhar de verdade, histórico na escola, nada consta no cartório? O que te faz emprestar o carro, pedir o impedível, arrumar um pouco de dinheiro sem prazo pra receber de volta, acreditar nas palavras todas e até nas pausas, contar daquele amor que ninguém sabe, daquela saudade que você faz de conta que não sente mais, daquela novidade que precisa esperar uma semana inteira antes de virar conversa? Quatro anos de convivência, um abraço que te envolve inteiro, a lembrança daquela noite em que você ligou às três da manhã pra chorar pitangas? O que te faz confiar em alguém?

Confiança pode ser um bocado de coisas, crença na probidade moral, na sinceridade afetiva, nas qualidades profissionais, na promessa de dias melhores, nas palavras daquela noite em que indisposição, feridas e angústias pareceram bem menores do que antes. Pode ser a decisão de dizer sim às cegas numa terça-feira qualquer, a escolha de mergulhar com tudo numa história sem garantias de final feliz, a intenção de perdoar até os maiores deslizes, até o orgulho, até o ciúme, até o silêncio que não devia ser silêncio, até as faltas sem justificativa decente.

Pode ser abrir a vida inteira numa noite de conversa, votar no amigo de infância que resolveu ser vereador, entregar o joelho pro médico na sala de cirurgia, dar a chave pra faxineira que vem apenas às sextas-feiras, emprestar seu filho pra passear com a tia, dormir na estrada enquanto o outro dirige. Pode ser abrir a porta de casa pros amigos que acabou de fazer, votar no vizinho pra síndico, entregar as unhas pra manicure de alicate afiado, dar a chave pro mecânico, emprestar o vestido preferido, dormir abraçado ou fazer que dorme, só pra aproveitar o abraço. Simplesmente porque você confia, sem às vezes nem ter por quê.