da série releituras

Atormentado de amor, mandei consertar os estragos da borrasca e aproveitei para providenciar muitos outros remendos que vinha demorando fazia anos por insolvência ou por indolência. Reorganizei a biblioteca, na ordem em que os livros tinham sido lidos. No fim me livrei da pianola como se fosse relíquia histórica, com seus mais de cem rolos de clássicos, e comprei um toca-discos usado mas melhor que o meu, com alto-falantes de alta fidelidade que aumentaram o ambiente da casa. Fiquei à beira da ruína mas bem compensado pelo milagre de estar vivo na minha idade.

A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

Gabriel García Márquez, Memórias de Minhas Putas Tristes

carta aberta a amy winehouse

Querida Amy,

Meu ex-vizinho costuma dizer que você é a mulher ideal: canta bem, tem estilo e [o que é melhor, na opinião dele] bebe junto. Verdade que o seu beber junto ultrapassa, e muito, os limites estabelecidos pelo bom senso e pela Organização Mundial das Mentes Sãs em Corpos Sãos, e que o resto da sua vida acompanha o ritmo. Mas você, dona encrenca, é cool até o caroço.

O Zé tem razão, Amy. Você é demais. Matou de cara a charada de que o amor é um jogo perdido, aprendeu na marra que às vezes precisa morrer uma centena de vezes, entendeu que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto é difícil colocar as coisas em ordem com a sua [dele] voz na minha [sua] cabeça.

– What kind of fuckery is this?

Fico com dó quando você aparece completamente estragada nas revistas, com seus modelões anos 60, de flor no cabelo e tudo, e umas olheiras absurdas, uma magreza escancarada, a saúde oca à flor da pele. Mas gosto quando você debocha da sua estupidez, quando confessa seus vícios, quando chora os amores frustrados acabada no chão da cozinha, quando celebra a boemia que, de um jeito torto, dá sentido a sua vida – e [pode palavrão?] foda-se o resto.

– Depois do último, acho que é impossível um homem me magoar.
Não dói a sério, é só incrivelmente irritante.

Boto fé, Amy.

Porque o fim de determinados amores de fato irrita mais que dói, e nessas horas, minha amiga, fica difícil saber o que fazer com o Diário do Futuro Compartilhado, porque não há mais futuro, muito menos partilha; com o retrato do sorriso azul, porque não há mais retrato, muito menos azul; com as afinidades inquestionáveis que num momento eram decisivas e no outro não servem pra mais nada; com aquela coleção de mensagens inapagáveis que você lê e relê enquanto não consegue dormir; com a saudade absurda que franceses, chineses, paquistaneses e dinamarqueses sequer têm no dicionário e a gente sente que é uma beleza.

Sei que a comparação é bizarra, mas sabe, Amy, você me lembra uma musiquinha do Kid de Abelha que diz assim:

“Sou capaz de gritar
E de te ofender
De me machucar
Mas não de te esquecer
Sou capaz de chorar
Ser ridícula até não agüentar
Posso bater com a cabeça na parede
Posso fingir que não sou inteligente
Posso pensar em vingança e traição
Gosto de ser cruel
Pra chamar sua atenção
Eu faço o que você quiser
Pra agradar seu coração”

Tenho a impressão, vendo de longe, que você é dessas, Amy. Acho que você às vezes exagera, mas concordo que de vez em quando é preciso meter os pés na jaca, chorar e espernear, com o objetivo pouco nobre, mas de certo modo corajoso e inevitável, de dizer o que é preciso ao coração de um cara.

É cruel, Amy. Mas – você sabe – faz parte. Você sabe.

leitura para uma noite de vento frio

Crônica com Endereço Certo
Carmélia Maria de Souza, fevereiro de 1968

Além do mais, Dindi, este é um momento dos mais importantes e de coisas graves. Não adianta dizer que a vida não passa disto mesmo o tempo todo – sei que isto não vai consolar, não vai servir para nada.

Acontece, porém, que não saberei falar outra coisa, eu nunca soube falar as coisas que deveria falar – você me conhece bem, você sabe como sou imbecil, tímida, completamente desajeitada. Nunca soube comprar uma roupa para mim e estou ficando cada dia mais desorganizada nessa questão de objetos, pessoas, correspondências, horários. Sou, enfim, sou uma pessoa distraída e tresloucada, um caso perdido, uma pobre diaba.

Viver, para a pessoa que eu sou hoje em dia, é esta aflição imutável, é este desespero de perder tudo, de repente descobrir que tudo voltou aos devidos lugares. Este viver de abrir os braços e dar a impressão muito falsa de que estou sempre preparada para o que der e vier. No fundo, você sabe, sou medrosa e covarde como o diabo. E embora não pareça, tenho a alma atormentada e não me conformo com nada. Não sou, portanto, a pessoa indicada para estar ao seu lado neste momento – você escolheu a companhia completamente errada.

Todavia, não irei embora. Vou agüentar firme aqui mesmo, enquanto puder e você me quiser perto, assim como estamos agora.

Falar mesmo a verdade, eu só sei andar por aí, viver às escâncaras, beber vinho, nunca ter dinheiro e falar das minhas saudades. Adoro, Dindi, estas ruas da noite, este silêncio – você acertou, quando disse que eu era a primeira dama da madrugada. Foi na madrugada que aprendi a amar muitas coisas. Que aprendi a distância que existe entre uma flor e uma estrela e, ao mesmo tempo, a hora de as trazer reunidas, por causa do momento que lhes deu o mesmo significado.

Não me ensinaram a falar palavras que consolem, todavia, é neste momento que eu sofro imensamente por não saber dizer a você, aquilo que você tanto precisa ouvir. Me lembro, inclusive, de um momento muito antigo, daquela tarde de setembro, quando eu deveria ter dito sim e disse sim… Quando deveria ter feito o gesto que não fiz e fiquei em silêncio, vendo tudo se perder.

Mas vou tentar alguma forma de acertar desta vez com você. Vou lhe pedir para não se preocupar com estas bobagens que tanto preocupam você. Vou procurar convencer você de que o drama não chega a ser drama, por que é que você vive assim? Não ligar, Dindi, ainda é a melhor solução.

Se isto puder servir de algum consolo, saiba que, enquanto for preciso, eu estarei sempre aqui. É bem verdade que tenho a alma esbagaçada e venho de muita dor. Mas me sinto contente, apesar da poeira desta estrada triste e comprida de onde vim, me sinto contente, porque ela me trouxe até você – você, criança eterna e querida, em cujos olhos ainda amanhece todos os dias. E por mais que eu chegue tarde a estas manhãs, por mais que eu traga as minhas culpas e as minhas dores nestas mãos, aqui continuará sendo dia e eu também poderei ser criança alguma vez, com o meu vestido cor-de-rosa, como se fosse sempre domingo.

Não sofra tanto. É domingo.

insistir, desistir

Como saber sobre a hora de desistir? Até que ponto é preciso ir para se convencer de que melhor deixar pra lá, fechar a porta, largar o osso, encerrar o expediente, dizer não sem voltar atrás? Como, ao contrário, acreditar que ainda deve tentar, pedir de novo apesar das recusas, sonhar de novo apesar das expectativas desfeitas, voar de novo apesar das quedas? Quando as possibilidades acabam e as insistências deixam de ser razoáveis para virar loucura? Em que dia, em que endereço, no meio de um almoço à beira-mar ou na volta do trabalho, enquanto cozinha ou na hora do banho, quando como onde por que a gente descobre, simplesmente, que não pode mais?

A geografia [ou vai ver é a publicidade] diz que a gente não deve desistir nunca, alegria apesar das adversidades, samba apesar da tristeza, otimismo apesar do salário mínimo, futebol apesar das perdas, carnaval sempre que possível, sorrisão, jeitinho, ginga e movimento apesar dos pesares, antropólogos, psicólogos, cientistas políticos e sociólogos reunidos em torno da mesa para estudar o significado de ser brasileiro e a descoberta de que brasileiro não desiste nunca.

A música diz coisa parecida, que não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo, enquanto a gramática determina que desistir é um verbo regular, oito letras, três sílabas e a grafia ritsised quando posto ao contrário. A química tem lá, listadinhos, os hormônios que explicam o desânimo, quantidades, sintomas e riscos de seus excessos e de suas faltas, enquanto, para os Salmos, os Coríntios e o Evangelho de João, desistir significa perder o melhor que Deus tem para oferecer.

Como saber, então, sobre a hora de desistir? Até que ponto é preciso ir para se convencer de que já deu, o caldo entornou, a paciência acabou, a fonte secou, o tempo esgotou? Como, ao contrário, acreditar que ainda compensa, dançar ainda apesar dos tropeços, gostar ainda apesar das faltas, perdoar ainda apesar das descrenças? Quando as chances acabam e esperanças deixam de ser razoáveis para virar estupidez? Em que idade, em que cidade e em qual estação, na sala de estar ou na varanda, no feriado ou na reunião, a gente descobre, simplesmente, que não consegue mais?

Como saber, então, se é coragem ou covardia desistir de uma história, de um encontro, de um amor que não responde ao seu? Como saber se o cérebro tem razão ou quem diz certo é o coração, fica mais um pouco, insiste mais um pouco, tenta mais um pouco ou o contrário, enterra história, encontro, amor e amigo dentro da gente [embora, para o resto do mundo, eles continuem vivinhos da silva], chora e segue? Até quando é possível recomeçar, de outro jeito, com outro espírito, ou quando não, não tem conserto, não tem conversa, não tem perdão?

Em que momento, no quarto ou no terceiro andar, durante a madrugada ou cedinho, quando o sol ainda nem apareceu, enquanto pedala ou no almoço de domingo, quando como onde por que a gente descobre, simplesmente, que acabou? Acabou como o pote de Nutella ontem [delícia], como a energia naquela tarde de chuva, como as esperanças dos torcedores daquele time. Acabou como este texto, à espera de respostas, e ainda sem certezas.