relativices

Taí um bom exercício pros dias difíceis: relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

Porque, em algum momento da vida, tempo e distância transformam angústia em nada, insegurança em alívio, o pior dos ressentimentos numa vaga lembrança, um monstro gigante num ciuminho inofensivo, uma paixão aparentemente incurável num amontoado de memórias brandas. Daí as dores doem menos, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o esforço alheio de dizer, ir, deixar, perdoar ou ficar, o tamanho do passo que parece pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso.

É Física pura, Einsten já dizia: dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas, e ambas perfeitamente aceitáveis, de um mesmo objeto. Do mesmo modo que altura, profundidade, distância, gravidade e eletrodinâmica estão sujeitos às leis que regem a matéria, amor, trabalho, esperança, indiferença, vazio, riso, coração partido, alegria, raiva ou afeto têm aparência e essência determinadas pela passagem do tempo e pela curvatura do espaço.

[Segundo Marcelo Gleiser, neste texto aqui, a certa altura da História, os físicos passaram a acreditar que a presença de uma massa, seja ela o Sol, a gente ou uma bola de tênis, deforma o espaço e afeta a passagem do tempo; quanto mais matéria, maior a curvatura do espaço e mais lenta a passagem do tempo].

Pelo sim, pelo não, pelo talvez ou pelo muito pelo contrário, em algum momento da vida, o que nasceu intenção vira projeto e depois hábito, palavras agarradas no teclado de computador viram texto e quem sabe livro, saudade vira cansaço, e então a gente quer parar e depois seguir, desejar, desejar mais, desejar menos e depois cansar.

A gente então quer entender, duvidar, passar dos limites e dormir, alimentar uma paixão platônica, viver uma real [e tem dias em que ai], emagrecer e fazer pregas nas calças, engordar de novo, rir de si mesmo ou chorar por causa das próprias decisões e das ausências e das canções, pagar pra ver o invisível e depois enxergar que é uma pena.

Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor vira outra coisa. Daí a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego vira a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Daí, depois de uns meses [às vezes anos], saudade, vazio e tristeza passam, o inverno acaba, as aflições ficam menores e a gente enfim aprende a relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

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