fidel

Eu olhava o tempo, o espaço e os sapatos alheios numa daquelas filas de banco que não terminam nunca quando ligaram do jornal perguntando se eu queria ir para Cuba fazer uma reportagem sobre o turismo de lá. Disse sim, queria, claro, e uns dias depois estava espremida num antigo avião de guerra da Companhia Cubana de Aviación, fabricação russa e aeromoças esquisitas, rumo ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana.

Cuba era tudo o que diziam, e ainda mais, uma contradição depois da outra. Era história, cultura, política, sol, água fresca e doses generosas de Mojito, era um curioso e apaixonante quebra-cabeça de contrastes, de hotéis de luxo e livros na praça, charutos que diziam ter sido enrolados em curvas femininas generosas, compras em dólar e a sensação de estar num filme dos anos 50, de arquitetura maltratada pelo tempo, carros antigos e muitas faltas, saúde e educação aos montes, mas nenhuma liberdade.

Havana era a realidade, coração da explosiva política e centro da frágil economia; Santa Clara, o templo de Ernesto Che Guevara; Holguín e Varadero, o sonho caribenho feito de estrangeiros torrados pelo sol, salsa, rum e meregue, e se havia ao menos uma coisa em comum entre um e outros esta coisa era a reverência devotada e de certo modo contagiosa dos cubanos a Fidel Castro.

[Feliz aniversário pra ele].

Fidel podia ser meu avô, seu pai, meu vizinho ou seu brother, não tivesse nascido em Cuba, estudado Direito ou liderado a guerrilha que derrubou Fulgêncio Baptista e instalou a revolução socialista em 1959. Podia ser um aposentado que joga dominó na praça ou um militar da reserva ainda de farda verde-oliva, não tivesse por todo o corpo os calos e os nós de vários anos. Podia, na mais distante das hipóteses, ser executivo da Johnson&Johnson ou professor em Harvard, mas não foi, como não é seu brother nem meu vizinho, e sim um sujeito dedicado, para o bem ou para o mal, a personificar a utopia.

Utopia, segundo os dicionários, é qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade. Goste-se [meu caso] ou não de Fidel [muitos, é verdade, e não sem razão], é difícil negar sua teimosia diante da dificuldade de manter um regime movido a igualdade e solidariedade, num mundo que roda para o lado contrário. Goste-se ou não, é difícil negar a crença dele em um sistema que expressa confiança e fé no homem, na solidariedade e na fraternidade, não no egoísmo e na ambição, que são de alguma maneira as origens da crueldade.

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10 comentários sobre “fidel

  1. Eu gosto do jeito que você escreve. Divertido, nunca banal e muito inteligente. Parabéns.

    Concordo que o egoísmo e a ambição sejam as origens da crueldade, e consequentemente de todo o mal do mundo, mas é verdade que o Fidel expressa confiança e fé no homem, na solidariedade e na fraternidade? Se for, porque instalar

  2. Obrigada, meninos.
    E Andrea, Fidel sempre divide opiniões, não tem jeito, né? Eu acho que expressa sim, mas é difícil que isso seja feito nos moldes do “ideal” principalmente por causa do embargo. Claro que discordo completamente das execuções e do modo como Cuba discorda dos descontentes, fuzilamento, prisões e afins. Mas ainda assim acho bonito o que ele fez lá, no resto. Enfim… É uma discussão longa essa…

  3. ana,

    penso sempre que os que se comprometem terão as mãos manchadas por algo. Errarão porque não hesitaram em encontrar-se consigo mesmos, com o que trazem no coração, em algum tempo da vida.
    Mas, e os que fingem que nada os toca, que tudo está bem, que a crueldade é natural do humano, onde estará suas mãos??
    Talvez, em algum ponto do universo tenham um sentimento de atrofia de tanto não colocar a mão na cumbuca que terão saudade de um dia terem tido mãos…

    beijo
    kiki

  4. Cuba é uma contradição. Nós também somos.

    Tudo gira em torno da questão: o que é liberdade? A noção do que é ser livre varia tanto de pessoa para pessoa, de paradigma para paradigma, que fica complicado avaliar comunismo, capitalismo e qualquer outro ismo.

    No fim, parece que sempre somos escravos de alguma coisa. Seja de uma ideia, seja do dinheiro… e por aí vai.

    Estranho sempre ter alguém para pagar o pato.

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