corpo, cérebro, casa

A raiva dói o estômago, o amor enche o peito, o cansaço pesa as costas, a alegria flutua as pernas, a saudade amarra os braços, a presença é justo o oposto. Cada dor, cada riso, cada vontade, cada graça, cada falta, cada coisa grita no pé, no tornozelo, nas batatas, no joelho, nas coxas, na cintura, pra cima, nos braços, no pulso, pro lado, na cabeça, e de repente fica mais evidente do que nunca o quanto corpo e cérebro sentem um as sensações do outro, pensam um as ideias do outro, tomam um a medida do outro.

Melhora no dia em que (às vezes demora) a gente aprende a ler o manual do proprietário que disseram haver escondido entre os tecidos do corpo e entende quanta distância, quanto abraço, quanto sono, quanto sorriso, quantas canções e quanto colo precisa pra curar as doenças ou manter a a boa forma do estômago, dos braços ou das costas, de perna e bunda, tornozelo e joelho, coxa e pulso, cérebro, sensação, ideia, medida, outro, de repente, evidência, tudo.

A teoria é antiga e certeira, quase um lugar-comum: o corpo é um templo, diz quase tudo o que precisamos ouvir. Deve, portanto, ser guardado com toda a atenção possível, fazer ginástica, comer saudável, pensar positivo, cuspir as mágoas fora e largar o cigarro, beber menos e dormir mais, exatamente como a casa em que vivemos, com parede descascada ou retrato pendurado, mesa de centro ou estante pros livros, CDs empilhados ou piano no canto, piso quebrado ou as plantas mais bonitas da feira, imã de geladeira ou TV de plasma, janela escancarada ou pé de manjericão.

O corpo é uma casa com manual do proprietário, meu amigo repete, tentando (e conseguindo) convencer as portas da percepção do meu corpo (céticas) de que o cérebro é a caixa de força da casa e os ossos são as vigas de sustentação; as veias são as paredes e os pulmões, o sistema de ventilação, aquecimento e ar-condicionado; o coração é o reservatório de água e o sistema digestivo é o encanamento de esgoto; os órgãos sexuais são a decoração; e o sistema imunológico, a segurança.

Faz um certo sentido, até, ter de cuidar das paredes, do aquecimento, da água, do esgoto, da decoração e da segurança do corpo pra acordar feliz como naquela tarde, sem dores nas costas como ontem, flutuando como de madrugada ou dançando engraçado. Faz sentido ter de cuidar do movimento pra ser leve como na infância, disperso como nos domingos, desapegado como o homem que morava na calçada, fantástico como a fábrica de de Willy Wonka. Faz sentido alongar as vértebras e fortalecer o abdome, pra sustentar a casa e o que mais vier.

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