rosa montero três

A história foi inspirada por ela:

Disse que, apesar de tudo, ainda acreditava no amor, e era tudo o que podia dizer naquela conversa sobre afetos, distâncias, dúvidas e Rosa Montero. Estavam a milhas de distância um do outro, e ela tinha as duas piores pressas do mundo: a hora marcada e a aflição dos que não sabem onde pisam. Disse do compromisso, mas não da angústia, e de sua opção pela solidão, dos motivos e tudo, e de como aquele sorriso contido atrapalhou os seus propósitos, fez querer arriscar de novo, tudo de novo, tudo.

Disse de como talvez fosse bom perder o rumo e a razão outra vez, e de como seria chorar embalada por três doses de qualquer coisa e depois seguir a vida caso as coisas outra vez dessem errado. Disse do seu cansaço, e ouviu do dele, do computador novo, das incertezas sobre as escolhas dos últimos tempos, da visita que a mãe faria, dos outros planos para maio e depois, ainda.

Disse quase tudo, menos das coisas que não teve coragem de dizer, das dúvidas que ela também carregava, da briga entre o medo do desconsolo e a vontade de ter de novo um amor que fizesse rir, ver mais sentido nos dias e nas noites, cair do cavalo e desacreditar de tudo outra vez, dos sonhos e senões que alimentou em silêncio, pela mesma falta de coragem de dizer. Tinha o dito e o não dito, e achava que agora era preciso viver as intenções todas, parar de dizê-las, isso sim, e vivê-las.

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Disse que, ao contrário dela, não sabia ao certo se vivia as intenções todas ou se analisava a vida. Disse das complicações sem dizer de verdade quais eram, dos limites sem estabelecê-los, do fato de que pessoas se gostam de jeitos diferentes e nem sempre sabem o que fazer com tanta diferença.

Disse do seu interesse em entender as relações que estabelecia com as pessoas e os sentimentos que cultivava, de entender e explicar, de sua mania de mudar de ideia quando as coisas pareciam já assentadas, do fato de que tinha muito mais incertezas do que certezas (só podia ser coisa de signo tanta hesitação), de tudo o que tinha feito para tornar viável aquela história que não foi, e das pedras do meio do caminho.

Disse quase tudo, menos das coisas que, como ela, não teve coragem de dizer, das definições que faltavam, de todos aqueles anos em que guardou olhares e desejos em segredo porque não era permitido compartilhá-los, do tempo que precisava para pensar, e era tudo o que podia dizer naquela conversa sobre afetos, distâncias, dúvidas e Rosa Montero. Estavam a milhas de distância um do outro, e ele tinha as duas piores dúvidas do mundo: uma fosse talvez sobre o amor, a outra sobre o que fazer com ele.

rosa montero dois

A história aconteceu com ela:

Um dia encontrou um norte-americano lindíssimo que anos depois se tornaria um astro de Hollywood. Um não falava a língua do outro. Queria seduzi-lo, embora tivesse certeza de que, enquanto outras mulheres fascinavam os homens com belas pernas ou com o balançar de seus cabelos, ela só era capaz de atraí-los com palavras. Se não podia usar o que considerava sua melhor arma e porque não tinha pernas belas nem cabelos esvoaçantes, estava perdida.

Acabou na cama do norte-americano lindíssimo que anos depois se tornaria um astro de Hollywood, sem saber como havia chegado ali sem a ajuda de suas poderosas aliadas e, pior, infeliz da vida. Tudo o quanto tinha depois do sexo tão mal mobiliado quanto o apartamento em que estavam eram as palavras, e as palavras, àquela altura do campeonato, não serviam de absolutamente nada.

rosa montero um

A história foi contada por ela:

Havia um sujeito bastante doente, mas que demorava a morrer, e de nada adiantava o médico balançar a cabeça e dizer: – Desta noite não passa. O homem respondia: – Não, nada disso, não se preocupe. Não posso morrer porque tenho que terminar de ler “O Outono do Patriarca”. Assim que o médico saía, ele pedia a uma das filhas: – Traga um livro mais grosso. Enquanto isso, não paravam de morrer colegas dele, e ninguém sabia o que de fato acontecia, até que a filha do não-morto explicou: – É porque a morte é leitora e, sempre que chegava e via meu pai lendo, se esticava toda para ver o que ele lia e se distraía, esquecendo de levá-lo.