andar com fé

É preciso ter fé em alguma coisa, nem que seja no tempo, que traz serenidade e ameniza as saudades, ajuda a aceitar os excessos, as rugas, os desamores, as decisões e os critérios, conserta desvios, cicatriza feridas. O tempo torna a falta de sentido um pouco mais suportável, transforma a dor em potência, mastiga, engole, digere e manda às favas um dia de trânsito engarrafado, conta no vermelho, enxaqueca, desarranjo ou aquela ausência repetida, sentida, incontida, aquela ausência, sentida, incontida, repetida.

É preciso ter fé em alguma coisa, nem que seja nos encontros, que a gente coleciona e acredita na lei natural deles, deixar um tanto, receber outro, dizer de histórias, preferências, vontades e a descoberta de que tem em comum o gosto pela madrugada, três amigos, um quadro na sala de estar ou uma falha no cromossomo 17. Os encontros ajudam a dizer das divergências, referências e da ideia fixa de que um bom samba resolve quase tudo.

É preciso ter fé em alguma coisa, na metafísica ou nas canções, o Rei cantando daquele modo bonito dele, a moça chorando enquanto era um era dois era cem era o mundo chegando e ninguém, as Bachianas Brasileiras, o Grande Circo Místico, o Elis e Tom. As canções embalam alegria e serenidade, barulho e pausa, grave e agudo, vontade e saudade, desafio e equilíbrio, as coisas todas juntas numa pilha de discos e aquele, seminovo, dividido em dois, muito e pouco e por fim a faixa que não para de tocar:

“Já matei você mil vezes e seu amor ainda me vem
Então me diga:
Quantas vidas você tem?”

É preciso ter fé em alguma coisa, nem que seja na Física, na teoria da relatividade e no fato de que há dezenas de verdades, boas e más, num único fato, de que dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas, e ambas perfeitamente aceitáveis, de um mesmo objeto. Daí as dores doem menos, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o esforço alheio de dizer, ir, deixar, perdoar ou ficar, o tamanho do passo que parece pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso.

É preciso ter fé em alguma coisa, nem que seja numa noite de sono inteira, a madrugada silenciosa, o braço forte que envolve o corpo, o modo silencioso que tem todo o encanto do mundo, cheiro no travesseiro, o coração todo tomado de uma alegria consistente, o café na manhã seguinte, a diversão toda, o ritual inteiro.

É preciso ter fé em alguma coisa, nem que seja na opção de rir de tudo quanto possível apesar das ausências, dançar quase sempre apesar das perdas, investir na leveza e no movimento, na beleza do improviso, na necessidade do acaso, forró, xote, xaxado e baião postos a serviço do compositor que compartilha referências, afetos, criações e opiniões até quando os outros preferem guardá-los. É preciso ter fé em algum coisa, nem que seja na festa.

relativices

Taí um bom exercício pros dias difíceis: relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

Porque, em algum momento da vida, tempo e distância transformam angústia em nada, insegurança em alívio, o pior dos ressentimentos numa vaga lembrança, um monstro gigante num ciuminho inofensivo, uma paixão aparentemente incurável num amontoado de memórias brandas. Daí as dores doem menos, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o esforço alheio de dizer, ir, deixar, perdoar ou ficar, o tamanho do passo que parece pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso.

É Física pura, Einsten já dizia: dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas, e ambas perfeitamente aceitáveis, de um mesmo objeto. Do mesmo modo que altura, profundidade, distância, gravidade e eletrodinâmica estão sujeitos às leis que regem a matéria, amor, trabalho, esperança, indiferença, vazio, riso, coração partido, alegria, raiva ou afeto têm aparência e essência determinadas pela passagem do tempo e pela curvatura do espaço.

[Segundo Marcelo Gleiser, neste texto aqui, a certa altura da História, os físicos passaram a acreditar que a presença de uma massa, seja ela o Sol, a gente ou uma bola de tênis, deforma o espaço e afeta a passagem do tempo; quanto mais matéria, maior a curvatura do espaço e mais lenta a passagem do tempo].

Pelo sim, pelo não, pelo talvez ou pelo muito pelo contrário, em algum momento da vida, o que nasceu intenção vira projeto e depois hábito, palavras agarradas no teclado de computador viram texto e quem sabe livro, saudade vira cansaço, e então a gente quer parar e depois seguir, desejar, desejar mais, desejar menos e depois cansar.

A gente então quer entender, duvidar, passar dos limites e dormir, alimentar uma paixão platônica, viver uma real [e tem dias em que ai], emagrecer e fazer pregas nas calças, engordar de novo, rir de si mesmo ou chorar por causa das próprias decisões e das ausências e das canções, pagar pra ver o invisível e depois enxergar que é uma pena.

Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor vira outra coisa. Daí a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego vira a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Daí, depois de uns meses [às vezes anos], saudade, vazio e tristeza passam, o inverno acaba, as aflições ficam menores e a gente enfim aprende a relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

porque hoje é sábado

Dia da Criação
Vinicius de Moraes

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

o coração, o inverno, o verão e a primavera

Deu no jornal: um estudo da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, na Inglaterra, sugere que a possibilidade de infarto é maior depois de duas semanas de exposição ao frio. Com base em 84.010 internações, a equipe da médica Krishnan Bhaskaran observou um maior número de infartados nestas condições. Salvaram-se apenas os que tomavam aspirina. O remédio, ao que tudo indica, protege o coração de alterações na função plaquetária – o frio contribuiria para o aumento da pressão e da viscosidade do sangue, induzindo a agregação de plaquetas.

De outro lado, registra-se na primavera e no verão a maioria dos casos de Síndrome do Coração Partido, que, ao contrário do que o nome sugere, não é um mal que acomete aqueles dispostos a amar uma, duas, três vezes, apesar das provas de que amar nem sempre é a coisa mais sensata a se fazer na vida. A SCP foi descoberta no Japão no início dos anos 1990, entre mulheres com mais de 60 anos que estejam vivendo ou tenham vivido situações de tensão extrema. Os sintomas se parecem com os de um infarto, mas as consequências, felizmente, são menores e rapidamente reversíveis.

ode ao domingo

É o dia em que os antigos povos pagãos reverenciavam seus deuses, contemplavam o tempo, dançavam com mais vigor a dança das colheitas e a libertadora ausência do pecado, do mau e do inferno, celebravam a relação para eles mágica do homem com a natureza, cultuavam seus ancestrais e destinavam suas preces ao quente e ao amarelo que vinham do céu.

[Um dia dedicado ao sol não pode ser mau].

É dia de cerveja, campo, bola, esquema tático, juiz ladrão e palavrão [porque xingar o juiz é mais terapêutico que qualquer técnica de William Reich, inclusive chutar o colchão], aquele dia em que pros que gostam de bola só o futebol basta e pras que gostam das belezas do mundo tem expressão dos olhos, torneado dos braços, definição do tórax, espessura da coxa e sorriso de propaganda de pasta de dente.

É dia de conhecer música nova, ou reconhecer, como aquelas do Rei que a gente ouvia de criança e ainda hoje, aquele dia de ouvir as verdades da baladinha sobre quando a gente não imagina por quê, as mentiras daquele sambinha sincopado, os cinco acordes daquele roquezinho singelo, exatamente assim, no diminutivo que não diminui em nada, só acrescenta um pouco da doçura que às vezes falta.

É dia de comer comida de mãe, um almoço depois outro, aquele imperdível macarrão com frango à milanesa que tem na mesa desde tanto tempo que nem sei e beber Coca-Cola sem culpa, assistir às reprises de desenho animado com os pequenos na TV, conversar fiado com os grandes na varanda, espalhar o jornal pela sala e depois ler, pedaço por pedaço, cortando o que interessa e elaborando notas mentais ou a lápis.

É dia de reencontrar os queridos no final da tarde, café, cinema, Original, os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, os ouvidos que ouvem o útil, o fútil, o fundamental e o nem, as pernas que batem pela cidade, as mãos que ajudam a secar o choro e a enterrar os que nos deixam cedo demais, o braço que aperta, olho, boca, nariz, joelho, pescoço e cotovelo para tantos verbos quantos caibam na arte do diálogo.

É dia de ler o físico meio poeta, que defende que os cientistas podem provar com experiências as leis da natureza, podem mostrar como objetos em queda livre são acelerados em direção ao chão independentemente de suas massas, podem elaborar teorias que explicam a atração quase sobrenatural entre dois objetos, prever a chegada dos cometas, explicar as marés, entender o formato achatado da Terra, calcular a precessão dos equinócios e muito mais, mas não podem explicar o motivo das coisas, seus propósitos, as razões de elas acontecerem.

Domingo é dia de tanta coisa, celebrar o sol, música nova, música velha, comida de mãe, desenho animado, café, cinema, Original e os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, jornal, cientista poeta, físico astrônomo escritor roteirista e talvez a graça da vida… É dia de tanta coisa que não dá pra entender porque quase todo mundo diz que fica entediado. Pra ser melhor, só faltava ter supermercado aberto.