amigo é todo dia, inclusive hoje

O dia oficial é o 20 de julho – um argentino resolveu celebrar a chegada do homem à Lua, porque aí, segundo ele, passou a ser possível fazer amigos em outras partes do universo. Mas na prática qualquer dia, inclusive hoje, é dia de celebrar os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, os ouvidos que ouvem, as pernas que batem, olho, boca, mão, nariz, joelho e cotovelo para tantos verbos quantos caibam na arte do diálogo.

Qualquer dia, inclusive hoje, é dia de comer bolo de chocolate, cantar desafinado, falar a verdade, engolir pizza de ontem e Coca Cola às oito da manhã, falar das dores nas noites de terça, ver Por uma Vida menos Ordinária de novo e de novo e suspirar pelos dentinhos amarelos do Ewan McGregor [gracinha], telefonar no auge do descontrole etílico pra falar que ai ou marcar um almoço, em cima da hora, simplesmente porque precisa ser.

Qualquer dia, inclusive hoje, é dia de discutir política mesmo que vocês nunca concordem e falar de cinema mesmo que vocês nunca se entendam e comprar presente só para fazer graça e pedir ajuda e depois devolver de bom grado e sair por aí quando o mundo perde o sentido e alugar o ouvido e tanta coisa que só o poema do Vinicius explica.

“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Eles fazem parte do mundo que eu tremulamente construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado”.

Qualquer dia, inclusive hoje, é dia de aparecer quando a gente menos espera e trazer problema ou uma planta pra pôr na sala, rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder as coisas, as pessoas e o rumo. Porque amigo é assim: pra encontrar, rodar a praça cantando Roupa Nova [pra que tanta pressa de chegar?] e rir cantando até as piores canções.

Amigo é pra contar segredos e repetir mil vezes o mesmo amor – mais vezes ainda o não amor, que a gente fala até gastar. Amigo é pra emprestar roupa e dinheiro sem juros, rir até a barriga doer e alugar o ouvido um pouco mais; é pra viajar e chorar e enterrar os que nos deixam cedo demais e passear com o cachorro e puxar a orelha e às vezes perder a linha. É pra abraçar, e às vezes algo a mais. É pra ir à praia até nos dias sem sol, falar de tudo sem vergonha, andar de bicicleta sem pressa, comer brownie de chocolate com sorvete sem culpa. Amigo é pra tanta coisa, até pra ficar à toa, sem conversa nem planos, sem compromisso nem pressa, sem agenda nem nada.

Qualquer dia, inclusive hoje.

a era da delicadeza

A boa ideia veio de um candidato a deputado federal em São Paulo:
Que a era pós-Lula seja a Era da Delicadeza.

(Espero que não seja plataforma apenas pro ano da eleição nem discurso bonito só pra ganhar votos…).

“Precisamos da delicadeza em todas as áreas, e na política não é diferente”, ele escreve, defendendo que homens e mulheres que se dispõem a entrar na vida pública tenham, antes de tudo, sensibilidade de compreender as transformações do mundo.

Porque o mundo, é verdade, anda mudando depressa, abrindo espaços aos que pensam um pouco menos na posse e um pouco mais no sentido das coisas, um pouco menos no acúmulo e um pouco mais na permanência, um pouco menos no exagero e um pouco mais no equilíbrio. A política ainda segue, quase sempre, no caminho oposto, do apego e da corrupção, dos princípios bambos ou sua total ausência, dos discursos vazios ou sua completa falsidade, num ambiente feito de muito menos boas intenções do que precisava haver.

Ali, como aqui e no resto, em Vitória ou em Brasília, em Genebra ou na China, nas praças de Jardim da Penha ou nas esquinas de 31 de Março, um pouco de delicadeza certamente não faria mal.

em defesa das perguntas

A Garota que Perguntava, um texto do ano passado, a propósito do ensaio Sobre a Entrevista (Ou as Boas Intenções de um Ciclone), inédito até a semana passada. No texto, inteiro aqui, Mark Twain (que não se sabe bem se é ele mesmo ou o irmão gêmeo) afirma que a entrevista “não foi uma invenção feliz”, provavelmente ignorando o poder das perguntas, a capacidade de dançar que elas têm e o fato de que são – certamente, quase sempre – mais libertadoras que as respostas.

– Você pergunta demais.
– Você acha?

Era cedo, estava claro à sombra do Mestre Álvaro, e ele estava certo: ela de fato terminava cada frase com uma interrogação, às vezes mais de uma. Olhava os olhos dele à espera da resposta, esperava. Tinha dúvidas sobre as vontades dele e seu destino, os desejos dele e seu paradeiro na noite anterior. Queria saber em que momento ele escapava do que parecia real e entrava num mundo em que não havia relógio, promessa ou encontro marcado, e movido a quê.

Queria saber do passado, e da próxima terça-feira. Queria saber dos sentimentos dele, um depois o outro, se coração ou o mais imediato dos prazeres, se interesse ou indiferença, se planos ou apenas diversão quando não houvesse mais nada, se estar de verdade ou só parecer que sim. Queria saber quase tudo sobre quase todas as coisas que verdadeiramente contavam, a essência de preferência, o que caminhos, quais caprichos, onde projetos, como sonhos, por quanto tempo.

Daí perguntava.

Acreditava na imensa possibilidade das perguntas, na capacidade de dançar que elas tinham, desregradas, disponíveis, desimpedidas e ilimitadas. Acreditava que as interrogações, como as ideias, os botecos e as canções, faziam do mundo um lugar mais interessante e, talvez, um tanto melhor que este de castelos e coronéis maranhenses, vírus agaumeneum e bactérias da lipoaspiração, pouco de afeto e menos ainda de sentido.

Acreditava no que havia lido outro dia, que perguntar era mais libertador do que responder, que as perguntas certamente faziam entender o mundo melhor do que as respostas, permitiam formular e expressar os pensamentos mais absurdos sem ser acusado de inconsistência ou coisa do tipo. Acreditava, igualmente, na autoridade de uma questão como aquela outra, vinda do mesmo lugar: “O que resta de nós nos objetos que deixamos para trás?”.

Daí perguntava.

Diante das respostas, sorria o riso escancarado dos dias de sol, os acordes maiores do velho piano do quarto, a alegria incontida dos discos da caixa de madeira, “no sé dónde acomodarte, no sé de qué color pintarte, lo quiero hacer es salir a bailar un poco”; pensava um pouco e dizia tantas outras questões quanto o bom senso, as horas e o sono permitissem.

– Você pergunta demais.
– Você acha?

da série releituras

“Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa […]”

Trecho de Uma Oração, de Jorge Luis Borges.
Amém.

shrek e as escolhas da vida

Então o efeito borboleta, a teoria de um matemático especializado em meteorologia que garante que um único minuto pode mudar o rumo das coisas todas, caiu como uma bomba na existência do pobre Shrek.

O ogro do filme, agora em crise de meia-idade cansado dos filhos barulhentos, dos entupimentos sanitários e das visitas inconvenientes, resolve trocar um dia de sua vida por 24 horas de sossego, manhã, dia, noite e madrugada como nos velhos tempos, trocar um dia de sua vida pela sedutora possibilidade de voltar atrás e viver tudo de novo, só que de um jeito diferente.

Acontece que as coisas não saem conforme o esperado, desejado e planejado (alguém aí já viu este filme?) e, no quarto episódio da série (a verdade é que perdeu um pouco da graça), Shrek se vê diante do pior negócio da história. Pelo acordo que fez com um mágico malvado, quando acabar o período de sossego e liberdade, não vai haver mais o amor de Fiona nem bebês fofinhos, burro falante, gato de botas ou banhos de lama (eca), não vai haver estabilidade nem chão, afeto ou memória, amigos ou casa, não vai haver mais nada, Carpenters ou Beastie Boys, magia, afeto ou encontro, nada.

Escolhas – a gente sabe – têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e efeito que a Física não sabe o motivo.

Porque a Física (foi um físico quem disse, um físico meio poeta) pode provar com experiências as leis da natureza, mas não consegue explicar o porquê das coisas, seus propósitos, as razões de elas acontecerem e os resultados que trazem, de justo e de injusto, de límpido e de escuro, de alegre e de triste, de bonito e de feio, disto e daquilo, de inesquecível ou nem.

Shrek descobre que a sedutora possibilidade de voltar atrás e viver tudo de novo de um jeito diferente abre uma fenda esquisita para o ruim e o turvo, para o descaso e o sombrio, para o pior tipo de solidão, feita da distância que a gente não queria que houvesse e se atrapalha quando vai dizer. É uma distância amarga, indigesta, que nem toda a música do mundo resolve (só ameniza), um jazz, um blues, um roquezinho e um samba sobre o infinito postos um depois do outro para embalar as faltas com nome e sobrenome.

(Silêncio, por favor).

Escolhas – a gente sabe – têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado que a Física eu não sei se explica, mas o cinema conhece, desde 1946, pelo menos.

Lá, naquele ano e naquele filme, George Bailey ensinou, em sua falsa simplicidade, sobre a ganância (e sobre não se deixar escravizar pela posse), sobre o amor (e sobre não deixá-lo escapar porque o futuro dá medo) e, dentro do possível, sobre seguir em frente.

(Texto publicado em A GAZETA neste sábado)