antonia

antonia-filme Antonia é uma mulher prática, como devíamos ser todos, homens e mulheres. Sabe, por exemplo, a hora exata da própria morte. Decide e diz, sem meias palavras, o que no momento parece realmente preciso, certamente verdadeiro, supostamente urgente ou indiscutivelmente necessário. Escolhe voltar quando acha que chegou a hora, por menos bem-vinda que sinta ser [e de fato seja], e acolhe aqueles que como ela acabaram excluídos pelas convenções e pela hipocrisia: a adolescente que sofre abusos sexuais, o homem um pouco demente, o filósofo atormentado pelas marcas da guerra, a filha gay, o padre herege.

As estátuas em volta de Antonia mexem, as árvores sentem, as crianças sabem tudo o que se precisa saber. Na vida dela, alegrias e perdas se alternam, como na minha, na sua, na de quase todo mundo: faz malabares num dia e no outro mal consegue se equilibrar sobre as pernas, compra o limite inteiro do cartão de crédito num dia e no outro vende o almoço para pagar o jantar, festeja o sol, as plantas e os afetos num dia e no outro parece que tudo ficou cinza, murcho, vazio, como naqueles dias em que chove dentro da gente.

Antonia sabe o que reza o samba, que primeiro a gente nasce, depois floresce e um dia morre. Na vida dela, chegadas e partidas se alternam, como na minha, na sua, na de quase todo mundo, que cai num dia e no outro levanta, acorda com enxaqueca num dia e no outro sonha com todas as vértebras postas nos devidos lugares, o cabelo arrumado, as unhas feitas e lindos e longuíssimos cílios postiços que não precisam de retoque.

O nome do filme de 1995 já diz: Antonia é excêntrica e sua família, mais ainda. As escolhas dela desafiam o tempo, exatamente como naquela noite em que as palavras determinaram o caminho – consciente e irreversível como de certa maneira são algumas noites e boa parte das palavras. Seu mundo, quase fantástico, é feito de espíritos atormentados e demônios, mas também de afetos e comunhões, de olhares, esperança, dedicação, da dança divertidamente desajeitada que parece um pouco com a dança da própria vida.

Em “A Excêntrica Família de Antonia”, o tempo diminui a dor e embaça a memória, exatamente como nos anos que passam, um depois do outro, despedida e chegada, amor e decepção, conquista e perda, ferida e cicatriz, chove e enxuga, pensa e sente, diz, desdiz e depois desmente, porque o sentido de uma hora é a confusão da outra, a certeza de uma hora é o mistério da outra, o afeto de uma hora é a indiferença de depois.

Mesmo que às vezes pareça e ao contrário do que diz um dos personagens do filme, citando o pensador Arthur Schopenhauer, o mundo não é um inferno habitado por espíritos atormentados e demônios. Tem, é verdade, seus espíritos atormentados e seus demônios, mas tem também a canção e um olhar que transmite um amor que não cabe no corpo, tem esperança e a vontade de deixar o passado para trás, tem cor e um abraço que faz todo o resto parecer pequeno, tem a dança que dançamos conforme a música divina e as disritmias, bonitas como elas só.

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2 comentários sobre “antonia

  1. Quando conheci Antônia tive mais amor pela vida. Como é irresistivelmente forte e delicado o afeto que circula e só precisa ser capturado! Antônia é o desdobramento dos afetos familiares, é o acolhimento dos demônios e das desgraças, é o segredo da superfície da arte.
    Como sua neta fiquei a esperar a morte chegar até aquele corpo fenomenal, que virou raiz aérea em algum lugar. Antônia não tem pouso de captura, circula, voa, mas fixa, marca, deixa cicatriz. Até hoje tenho saudade de Antônia, como se tivesse vivido com ela todas as muitas vezes que participei, assistindo sozinha ou acompanhada, a sua história.
    Quisera ter seu excêntrico e receptivo coração. Talvez nunca tivesse me sentido sozinha.

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