a era da delicadeza

A boa ideia veio de um candidato a deputado federal em São Paulo:
Que a era pós-Lula seja a Era da Delicadeza.

(Espero que não seja plataforma apenas pro ano da eleição nem discurso bonito só pra ganhar votos…).

“Precisamos da delicadeza em todas as áreas, e na política não é diferente”, ele escreve, defendendo que homens e mulheres que se dispõem a entrar na vida pública tenham, antes de tudo, sensibilidade de compreender as transformações do mundo.

Porque o mundo, é verdade, anda mudando depressa, abrindo espaços aos que pensam um pouco menos na posse e um pouco mais no sentido das coisas, um pouco menos no acúmulo e um pouco mais na permanência, um pouco menos no exagero e um pouco mais no equilíbrio. A política ainda segue, quase sempre, no caminho oposto, do apego e da corrupção, dos princípios bambos ou sua total ausência, dos discursos vazios ou sua completa falsidade, num ambiente feito de muito menos boas intenções do que precisava haver.

Ali, como aqui e no resto, em Vitória ou em Brasília, em Genebra ou na China, nas praças de Jardim da Penha ou nas esquinas de 31 de Março, um pouco de delicadeza certamente não faria mal.

em defesa das perguntas

A Garota que Perguntava, um texto do ano passado, a propósito do ensaio Sobre a Entrevista (Ou as Boas Intenções de um Ciclone), inédito até a semana passada. No texto, inteiro aqui, Mark Twain (que não se sabe bem se é ele mesmo ou o irmão gêmeo) afirma que a entrevista “não foi uma invenção feliz”, provavelmente ignorando o poder das perguntas, a capacidade de dançar que elas têm e o fato de que são – certamente, quase sempre – mais libertadoras que as respostas.

– Você pergunta demais.
– Você acha?

Era cedo, estava claro à sombra do Mestre Álvaro, e ele estava certo: ela de fato terminava cada frase com uma interrogação, às vezes mais de uma. Olhava os olhos dele à espera da resposta, esperava. Tinha dúvidas sobre as vontades dele e seu destino, os desejos dele e seu paradeiro na noite anterior. Queria saber em que momento ele escapava do que parecia real e entrava num mundo em que não havia relógio, promessa ou encontro marcado, e movido a quê.

Queria saber do passado, e da próxima terça-feira. Queria saber dos sentimentos dele, um depois o outro, se coração ou o mais imediato dos prazeres, se interesse ou indiferença, se planos ou apenas diversão quando não houvesse mais nada, se estar de verdade ou só parecer que sim. Queria saber quase tudo sobre quase todas as coisas que verdadeiramente contavam, a essência de preferência, o que caminhos, quais caprichos, onde projetos, como sonhos, por quanto tempo.

Daí perguntava.

Acreditava na imensa possibilidade das perguntas, na capacidade de dançar que elas tinham, desregradas, disponíveis, desimpedidas e ilimitadas. Acreditava que as interrogações, como as ideias, os botecos e as canções, faziam do mundo um lugar mais interessante e, talvez, um tanto melhor que este de castelos e coronéis maranhenses, vírus agaumeneum e bactérias da lipoaspiração, pouco de afeto e menos ainda de sentido.

Acreditava no que havia lido outro dia, que perguntar era mais libertador do que responder, que as perguntas certamente faziam entender o mundo melhor do que as respostas, permitiam formular e expressar os pensamentos mais absurdos sem ser acusado de inconsistência ou coisa do tipo. Acreditava, igualmente, na autoridade de uma questão como aquela outra, vinda do mesmo lugar: “O que resta de nós nos objetos que deixamos para trás?”.

Daí perguntava.

Diante das respostas, sorria o riso escancarado dos dias de sol, os acordes maiores do velho piano do quarto, a alegria incontida dos discos da caixa de madeira, “no sé dónde acomodarte, no sé de qué color pintarte, lo quiero hacer es salir a bailar un poco”; pensava um pouco e dizia tantas outras questões quanto o bom senso, as horas e o sono permitissem.

– Você pergunta demais.
– Você acha?