shrek e as escolhas da vida

Então o efeito borboleta, a teoria de um matemático especializado em meteorologia que garante que um único minuto pode mudar o rumo das coisas todas, caiu como uma bomba na existência do pobre Shrek.

O ogro do filme, agora em crise de meia-idade cansado dos filhos barulhentos, dos entupimentos sanitários e das visitas inconvenientes, resolve trocar um dia de sua vida por 24 horas de sossego, manhã, dia, noite e madrugada como nos velhos tempos, trocar um dia de sua vida pela sedutora possibilidade de voltar atrás e viver tudo de novo, só que de um jeito diferente.

Acontece que as coisas não saem conforme o esperado, desejado e planejado (alguém aí já viu este filme?) e, no quarto episódio da série (a verdade é que perdeu um pouco da graça), Shrek se vê diante do pior negócio da história. Pelo acordo que fez com um mágico malvado, quando acabar o período de sossego e liberdade, não vai haver mais o amor de Fiona nem bebês fofinhos, burro falante, gato de botas ou banhos de lama (eca), não vai haver estabilidade nem chão, afeto ou memória, amigos ou casa, não vai haver mais nada, Carpenters ou Beastie Boys, magia, afeto ou encontro, nada.

Escolhas – a gente sabe – têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e efeito que a Física não sabe o motivo.

Porque a Física (foi um físico quem disse, um físico meio poeta) pode provar com experiências as leis da natureza, mas não consegue explicar o porquê das coisas, seus propósitos, as razões de elas acontecerem e os resultados que trazem, de justo e de injusto, de límpido e de escuro, de alegre e de triste, de bonito e de feio, disto e daquilo, de inesquecível ou nem.

Shrek descobre que a sedutora possibilidade de voltar atrás e viver tudo de novo de um jeito diferente abre uma fenda esquisita para o ruim e o turvo, para o descaso e o sombrio, para o pior tipo de solidão, feita da distância que a gente não queria que houvesse e se atrapalha quando vai dizer. É uma distância amarga, indigesta, que nem toda a música do mundo resolve (só ameniza), um jazz, um blues, um roquezinho e um samba sobre o infinito postos um depois do outro para embalar as faltas com nome e sobrenome.

(Silêncio, por favor).

Escolhas – a gente sabe – têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado que a Física eu não sei se explica, mas o cinema conhece, desde 1946, pelo menos.

Lá, naquele ano e naquele filme, George Bailey ensinou, em sua falsa simplicidade, sobre a ganância (e sobre não se deixar escravizar pela posse), sobre o amor (e sobre não deixá-lo escapar porque o futuro dá medo) e, dentro do possível, sobre seguir em frente.

(Texto publicado em A GAZETA neste sábado)

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