de como bakhtin fumou a bíblia e outras histórias

Achei estes dias meu Livro dos Livros Perdidos – uma História das Grandes Obras que Você Nunca Vai Ler, um volume simpático de um sujeito chamado Stuart Kelly (britânico, 30 e poucos anos, aparentemente obsessivo-compulsivo) que, desde cedo, perseguiu livros, autores, séries, capas e coleções, dos gregos a Agatha Christie, e elaborou listas com o que havia e o que faltava, o que gostava e o contrário. Fez – palavras dele – uma biblioteca hipotética, uma elegia ao que poderia ter sido.

As histórias são ótimas. Joyce, por exemplo, atirou ao fogo a primeira versão do clássico Retrato do Artista Quando Jovem. Bakhtin usou seu trabalho sobre Dostoiévski como papel para cigarro, depois de ter fumado um exemplar da Bíblia. Hemingway viu seu primeiro romance sobre a Primeira Guerra Mundial desaparecer das mãos da primeira de suas quatro esposas, durante uma viagem de trem, em 1922.

Kafka e sua última mulher queimaram, para se aquecer, algumas cartas, as últimas páginas do conto O Esconderijo, uma peça inteira e um conto de suspense. No prólogo de um dos volumes de Dom Quixote, Cervantes prometeu lançar o romance Persiles e Sigismunda e a sequência de Galatéia, seu primeiro grande sucesso, de 1584. Nenhum deles jamais apareceu.

Outra boa é sobre a volta de Dante do Além. Stuart Kelly descobriu que o pai de Jacopo e Pietro Alighieri – que trabalhou por quase 13 anos em sua alegoria sobre o inferno, o purgatório e o céu, mas morreu quando ainda faltavam os 13 cantos finais – apareceu em sonho para um dos filhos e mostrou, numa parede escondida de seu antigo quarto de dormir, o registro dos 13 cantos que faltavam. O menino acordou, bocejou, espreguiçou, levantou e terminou A Divina Comédia.

O que o livro diz sobre:
ERNEST HEMINGWAY
[1889-1961]

Hemingway sofreu de tudo um pouco antes de tirar a própria vida, em julho de 1961, com um tiro de espingarda. Quebrou os ossos em diversos acidentes de carro, contraiu antraz, sofreu com o excesso de álcool no fígado, foi, nas próprias palavras, emasculado por um ferimento de guerra. Mas pouca coisa doeu tanto quanto perder as “seis frases perfeitas” daquilo que seria seu romance sobre a Primeira Guerra. Os manuscritos estavam nos baús que Hadley Hemingway, a primeira de suas quatro esposas, carregava em 1922 numa viagem de trem à Suíça com os pertences do marido. “Todo autor produz textos juvenis. A maioria os destrói. O roubo dos manuscritos de Hemingway foi um curto-circuito no processo”, escreve Stuart Kelly em “O Livro dos Livros Perdidos”. O durão Hemingway nunca revelou se reagiu à perda com raiva, lágrimas ou alguma bebedeira.

FRANZ KAFKA
[1883-1924]

Três anos antes de morrer, Kafka pediu ao amigo Max Brod que queimasse todos os cadernos, manuscritos, anotações, cartas e rascunhos que ficassem, de preferência sem lê-los. Dizia que, de tudo o que escrevera, contavam apenas “O Processo”, “O Foguista”, “A Metamorfose”, “Na Colônia Penal”, “Um Médico Rural” e “Um Artista da Fome”. “Os poucos exemplares de ‘Meditação’ que existem podem ficar; não quero dar a ninguém o trabalho de destruí-los, mas não deverá haver reimpressão […] Tudo o mais que escrevi, sem exceção, deve ser queimado”, escreveu o autor. Ele mesmo tratou de destruir boa parte de seu trabalho. Stuart Kelly conta que, em 1923, o escritor tcheco e sua última mulher, Dora Diamant, queimaram, para se aquecer, algumas cartas, as últimas páginas do conto “O Esconderijo”, uma peça inteira e um conto de suspense.

MOLIÈRE
[1622-1673]

As cartas e os trabalhos não-publicados de Jean-Baptiste Poquelin, codinome Molière, tiveram seu fim na fogueira, como também sua obra final, “O Homem da Corte”. Célebre escritor de comédias, foi também diretor (“As Preciosas Ridículas”, de 1659, marcou sua estréia), ator (embora gago e ocasionalmente recebido pelo público com vaias e vegetais, ele encerrou a vida no palco_durante apresentação de “O Doente Imaginário”, teve um ataque e morreu pouco depois) e tradutor. Mas sua esperada versão para o francês de “Sobre a Natureza das Coisas”, do poeta latino Lucrécio, permanece perdida até hoje. A tradução teria sido concluída em 1661, dois anos antes do lançamento de “Escola de Mulheres”, primeiro grande sucesso do Molière-autor. Segundo Kelly, outro volume do criador de “O Avarento” perdeu-se, ninguém sabe por onde: “A Vida do sr. de Molière”.

MIGUEL DE CERVANTES
[1547-1616]

“Dom Quixote”, a aventura do Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro Sancho Pança, bastaria para colocar Miguel de Cervantes entre os maiores escritores de todos os tempos. Mas ele queria mais e prometeu, no prólogo de um dos volumes do livro famoso, lançar em breve o romance “Persiles e Sigismunda” e a seqüência de “Galatéia” seu primeiro grande sucesso, de 1584_ a obra é citada no próprio “Dom Quixote”, quando o protagonista volta de sua primeira e malsucedida saga, e sua sobrinha, o barbeiro e o padre decidem queimar os velhos romances que coloriram sua fantástica imaginação. Cervantes também dizia que preparava uma nova peça (“Enganado de Olhos Abertos”), um romance (“O Famoso Bernardo”) e uma coleção de novelas (“Semanas do Jardim”). “Persiles” saiu postumamente. Nenhum dos outros trabalhos jamais apareceu.

DANTE ALIGUIERI
[1265-1321]

O pai de Jacopo e Pietro Alighieri trabalhou por quase 13 anos num poema, uma alegoria sobre o inferno, o purgatório e o céu. Mas Dante Alighieri morreu quando ainda faltavam os 13 cantos finais de sua “Comédia”. Os filhos, então, decidiram completar a grandiosa obra paterna, a partir do raciocínio matemático que levava em conta o número perfeito de cantos, estrofes e linhas do que havia sido escrito até então. “O texto parava no 20º canto do Paradiso. Deixava seu pai encalhado no Sexto Céu, o de Júpiter, guardião dos justos […]; faltava, entre outras partes, a complicada descrição de Deus”, escreve Stuart Kelly. Antes que os dois quebrassem as cabeças, conta Boccaccio em “Vida de Dante”, Dante apareceu em sonho para Jacopo. Guiado ao antigo quarto de dormir do pai, o menino encontrou, no local indicado pela sombra paterna, o registro dos 13 cantos que faltavam.

SYLVIA PLATH
[1932-1963]

Entre 1962 e 1963, pouco antes de morrer, Sylvia Plath trabalhava num segundo romance, provisoriamente intitulado “Doube Exposure”, ou “Double Take”. Ao que tudo indica, havia escrito 130 páginas que, segundo o poeta Ted Hughes, seu controverso marido, sumiram “em algum momento antes de 1970”. A crítica Judith Kroll viu um esboço do romance e afirmou que ele caracterizava um marido, uma mulher e a amante, segundo Stuart Kelly. Antes de se suicidar, em fevereiro de 1963, Plath também escrevia extensos diários, em que, possivelmente, relatava as infidelidades do marido. Todos foram queimados por ele, que também alterou substancialmente a obra “Ariel”. A versão publicada continha apenas 27 poemas dos 41 que a autora reunira inicialmente. Alguns trabalhos excluídos foram publicados depois, numa segunda coleção póstuma, “Árvores de Inverno”. Hughes afirmou que “omitira alguns poemas pessoalmente mais agressivos”.

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