os opostos e a revolução pela comédia

Já reparou no quanto os opostos ensinam? É como se a complexidade empurrasse para a simplicidade, a profundidade quisesse a superfície, o barulho exigisse o silêncio. Como se o excesso de tantos anos abrisse espaço para o pouco, só o indispensável. Como se o movimento caminhasse para o lado contrário do olhar que defende a permanência. Às vezes faz sol, apesar do inverno, como se até a meteorologia quisesse prever, num único céu, dois polos de um mesmo tempo, julho e janeiro, equinócio e solstício, neve e suor, Deméter e Hades e a mitologia grega toda dividida em extremos, inteira.

As imposições fazem desejar a liberdade. As tensões impostas pelo expediente e pelos tensos pela própria natureza convidam a relaxar. Os tristes despertam uma alegria incontida. Os exaustivamente sérios estimulam uma incontrolável vontade de diversão, Charles Chaplin, botecagem, Beatles, o futebol do Robinho, Woody Allen, Gilmore Girls, chocolate com Coca Cola, licor de pêssego com Jack Daniels, sobrinhos, desenho animado, violão e todos os sambas e roquezinhos que a gente emenda um no outro até cansar, a madrugada e o riso que ela traz, com a presença dentro.

Parece, de algum modo, a tese da mudança absoluta pelo humor daquele simpático livrinho vermelho, a revolução pela comédia que defendem os adeptos do Grouxo-Marxismo. É coisa séria, ou semi: os grouxo-marxistas, liderados por um rapaz chamado Bob Black, propõem a política do prazer. Sugerem a criação de um novo estilo de vida baseado na brincadeira. Dizem, repletos de razão pelo menos neste ponto, que uma revolução que não serve para dançar e rir não é uma boa revolução.

Vai ver apostam, como parecem apostar os sul-africanos e os cubanos pelo menos quando a gente vê de longe, naquela que talvez devesse ser um pouco a postura de todos nós, todos os dias: rir de tudo quanto possível apesar das ausências, dançar quase sempre apesar das perdas, levar ao pé literalmente da letra a lição gingada do mestre Jorge Ben – que quando você para de brincar de mexer seu coração ao invés de bater padece.

[A arte de mexer vem desde os tempos da pedra lascada].

A vida é bela, ele canta, desde que a gente saiba brincar e mexer com ela, desde que aceite as derrotas com choro se for preciso e bola pra frente. A vida é boa desde que a gente sorria, com mais ou menos intensidade, mais ou menos frequência, mais ou menos barulho, desde que tenha verdade, diálogo e às vezes espera, por mais malvadas que elas sejam, e quase sempre são. A vida é boa com imaginação e com o que ensinam os opostos. Com simplicidade, silêncio, música, movimento e o indispensável, a vida é boa, ou tende a ser.