o grande gabito

Um homem, uma ausência e uma casa marcaram profundamente a vida do colombiano Gabriel José García Márquez e não é exagero afirmar que contribuíram de modo decisivo para transformar um menino pálido, subnutrido, abandonado pelos pais e que tinha os piolhos como uma de suas maiores preocupações num dos maiores escritores de todos os tempos.

O homem: Nicolás Márquez Majía, intransigente membro do Partido Liberal Colombiano e veterano da Guerra dos Mil Dias que tirou o neto do mundo feminino de premonições em que vivia e o levou ao mundo masculino da política. A ausência: o pai, um típico caribenho dos anos 1930 em cada centímetro de sua figura, que destinava ao filho cobranças, ofensas e nada de afeto. A casa: a velha residência dos avós em Aracataca, repleta de mulheres religiosas e de homens que ou estavam indo ou tinham vindo da guerra.

Os três – homem, ausência e casa – formam a base da biografia “Gabriel García Márquez – Uma Vida”, calhamaço de 814 páginas escritas pelo britânico Gerald Martin, que pesquisou o autor por 17 anos e realizou mais de 300 entrevistas, com mãe, irmãos e contemporâneos de García Márquez – Gabo para os fãs, Gabito para os mais próximos.

Apesar dos excessos de admirador, Martin vai fundo nas origens e revela as raízes dos fantasmas e superstições que inspiraram cenários e personagens míticos como a aldeia Macondo e o coronel Aureliano Buendía no clássico “Cem Anos de Solidão”, título central de uma obra quase toda imperdível.

A política e a solidão

Dividido em três partes e 24 capítulos, o livro cobre do nascimento do escritor em 1927 ao autoimposto silêncio dos anos 2000, da descoberta do mundo na primeira viagem pela Europa às ligações políticas, das necessidades que passou até os primeiros anos da vida adulta à conquista do Nobel de Literatura, da ingratidão que demonstrou a alguns amigos ao casamento com o amor de criança.

Meticuloso e incansável, Martin reforça a ideia, já presente na autobiografia “Viver para Contar”, de que a infância algo mítica foi decisiva na concepção do realismo fantástico que marcaria fortemente a literatura latino-americana em geral e a produção de Gabo em particular.

Mais que isso, traz à tona detalhes preciosos a respeito de um homem conhecido pela resistência em expor sua vida e pela estratégia de contar várias versões de um fato para confundir interlocutores e possivelmente camuflar os sentimentos de inferioridade, perda e abandono trazidos da infância.

Martin analisa de maneira compulsiva as origens, a literatura e a árvore genealógica do autor, mas falha ao maquiar uma face importante (e muitíssimo polêmica) que também interessa aos admiradores (e ainda mais aos detratores): a da figura pública de esquerda que sobreviveu à própria esquerda.

Dono de um evidente e arriscado fascínio pelo poder, García Márquez alimenta ligações políticas quase tão barrocas quanto seu guarda-roupa. Contraditório, coleciona amizades com liberais e conservadores e, com o mesmo afinco, defende democratas ou ditadores, dependendo da situação.

A mais longa e polêmica dessas relações é certamente a que mantém com o ex-presidente de Cuba Fidel Castro. Gabo tem verdadeira devoção (declarada e recíproca) ao comandante. Desde que era um jornalista em início de carreira e o cubano, um líder estudantil, avalizou suas decisões, até as condenadas pelo resto do mundo, artistas e intelectuais inclusive.

A postura mistura vaidade e ingenuidade, mas tem lá sua coerência e diz muito da sua vida e de sua obra. Cuba, afinal, ousou desafiar as imposições dos Estados Unidos à América Latina como ele ousou desafiar a pobreza, o abandono e o descrédito. Fidel, por sua vez, tornou-se símbolo de um continente marcado por guerras, desigualdades e autoritarismo, temas caros ao universo de García Márquez, sem os quais provavelmente não haveria seus livros nem seu retrato da maneira como os conhecemos. Gabo seria outro e a literatura latino-americana, certamente, menos interessante.

O que o livro diz sobre Gabo e…

… o amor. Uma das passagens da biografia resume a bonita relação do escritor com a discreta mulher, Mercedes Barcha, com quem tem dois filhos (foto): em 1966, o casal levou os originais de “Cem Anos de Solidão” a uma agência dos Correios para submeter o livro à avaliação da editora. O envio das 490 páginas datilografadas custaria 80 pesos. Eles, que tinham apenas 50, despacharam metade do romance, voltaram para casa, penhoraram o aquecedor, o secador de cabelo e o liquidificador e retornaram ao posto. O livro é dedicado “para Mercedes, é claro”.

… a infância. Com exceção dos avós, a maioria das pessoas não levava muita fé em García Márquez. “Gabito era uma criança doente naquela idade: pálido, subnutrido e fisicamente subdesenvolvido. A mãe tentava protegê-lo da tuberculose dando-lhe Emulsão Scott – a famosa marca de óleo de fígado de bacalhau. Uma das lembranças mais aterrorizantes de sua infância foi a da leiteira que fazia entregas na casa e que um dia disse grosseiramente a Luisa Santiaga, na frente do próprio menino: “Detesto dizer isso, senhora, mas não acho que esse seu menino vai conseguir crescer e virar gente”.

… o rancor. Uma passagem do livro explicita o profundo sentimento que Gabo guarda a respeito do passado: “Todo mundo é meu amigo desde ‘Cem Anos de Solidão’, mas ninguém sabe o que me custou chegar até aqui. Ninguém sabe que fiquei reduzido a comer lixo em Paris. Uma vez, estava numa festa na casa de alguns amigos que me ajudaram um pouco. Depois da festa, a dona da casa me pediu que colocasse o lixo na rua pra ela. Eu estava com tanta fome que peguei tudo que pude do lixo, e comi, ali e depois”.

… a Europa. García Márquez chegou à Europa para trabalhar como jornalista aos 28 anos. Em Paris, catou garrafas vazias e jornais velhos para vender, passou fome como o ídolo Ernest Hemingway e viveu um amor intenso com a modelo espanhola María Concepción Quintana, conhecida como Tachia (foto), que o biógrafo descreve como “aventureira, magnética, curiosa e aberta a qualquer tipo de experiência”. No final do romance, ela fez um aborto e partiu. Ele tinha “Ninguém Escreve ao Coronel” pronto. Em Roma e Veneza, descobriu que os italianos pobres “sempre perdiam, mas perdiam de maneira alegre e diferente” e passou a defender a ideia de que esta característica era, também, marcante nos latino-americanos – segundo o biógrafo, Gabo devotaria muito tempo de sua carreira para torná-los “mais conscientes e mais satisfeitos a respeito de si próprios”.

… o pai. Segundo o biógrafo, Gabriel Eligio quis abrir a cabeça do filho e mexer em seu cérebro. Era maio de 1941 e García Márquez teve um transtorno emocional, descrito pelo pai como “algo parecido com um esquizofrenia”. Gabo, na verdade, num ataque de raiva, jogou um tinteiro em um dos padres da escola em que estudava. Os jesuítas escreveram a seu pai sugerindo que ele fosse tirado da escola. O pai obedeceu e, não fosse a intervenção da mulher, abriria sua cabeça num ritual caseiro de trepanação. García Márquez faria questão de desapontar o pai inúmeras vezes sempre que possível, escreve o biógrafo. “O relacionamento dos dois jamais conseguiu ser fácil ou prazeroso”, continua. Quando soube que o filho havia desistido da faculdade de Direito, gritou: “Você vai acabar comendo papel”. Numa outra ocasião, mandou o seguinte recado: “Diga àquele espermatozóide para ir em casa ver sua mãe”.

… as influências. García Marquez teve dezenas de influências literárias: Franz Kafka, Fiodor Dostoiévski, William Faulkner, Hemingway, Jorge Luis Borges e um volume de “As Mil e Uma Noites” encontrado num dos velhos baús de seu avô. Teve também ligações próximas com escritores contemporâneos, como Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e José Donosco (foto). Llosa passou de compadre (García Márquez é padrinho de seu segundo filho) a detrator na noite em que recebeu Gabo com um soco no rosto e quase o levou a nocaute. Os dois não falam sobre o assunto, mas a versão corrente é que o escritor peruano, em crise no casamento, estava aborrecido com os conselhos que o amigo estaria dando à sua mulher, Patrícia. A econômica Mercedes teria dito, a respeito do episódio: “É que Mario é muito ciumento”.

Sucesso não eliminou fantasmas da infância

O escritor colombiano Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura e autor de obras-primas como “Cem Anos de Solidão” e “O Outono do Patriarca”, tinha apenas 8 anos quando viveu aquele que considera o último fato importante de sua vida: a morte do avô. Segundo ele, desde então, tudo vem sendo “monótono e enfadonho”.

A biografia escrita pelo britânico Gerald Martin desmente, felizmente, a declaração do escritor de 83 anos, primeiro de 11 filhos nascido às nove horas da manhã de um domingo, em meio a uma tempestade fora de época. Ainda bebê, Gabo foi deixado com os avós maternos em Aracataca, no interior da Colômbia, e por muitos anos lutou primeiro por sobrevivência e depois por reconhecimento do pai e do mundo.

Amadureceu na marra, obrigado, aos 12 anos, a organizar a mudança da família – anos mais tarde, a mãe lembraria do filho no deque do barco a vapor, contando crianças e entrando em pânico porque faltava uma. Era ele, que tinha esquecido de incluir a si mesmo na conta.

Trajetória

Os primeiros passos na literatura viriam em seguida, com a criação de poemas satíricos sobre os colegas de classe e as regras da escola. Aos 13, publicou alguns poemas na revista escolar. Aos 19, tinha considerável prestígio entre os colegas de classe, a quem divertia com versos de humor, poemas de amor e caricaturas que desenhava.

Aos 20, matriculado no curso de Direito da Universidade Nacional, em Bogotá, teve seu primeiro texto publicado em jornal: “A Terceira Resignação”, na página 12 da edição de sábado do Espectador, um dos jornais mais tradicionais da Colômbia. Também passou a frequentar os bares e bordéis de onde sairiam muitos de seus personagens.

Martin disseca esse processo e explica, em profundidade, porque muitas das histórias do autor de “O Amor nos Tempos do Cólera” são sobre esperar por – e ter esperanças em – coisas que podem nunca acontecer (e, em geral, não acontecem).

Mostra, ainda, que o sucesso não amenizou os fantasmas do menino de pele branca e cabelo cor de açúcar mascavo. Pelo contrário: os pesadelos continuaram e, aliados às lembranças da infância, à experiência jornalística e à cinematográfica política da América Latina, formaram a base de sua obra, que se tornou madura à medida em que ele se sentia à vontade para acrescentar pessoas vivas aos mortos que, desde muito, atormentam sua imaginação.

Leia sem parar

Gabriel García Márquez: Uma Vida
Gerald Martin
Editora Ediouro. 814 páginas
Quanto: R$ 89 (em média)

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