sobre o coração e coisas do tipo

Tem dias em que a gente olha em volta e o mundo inteiro parece estar com o coração partido. O assunto das madrugadas são as ausências e as saudades, as madrugadas em si são feitas igual, de vazios e faltas, o músico canta o ponto final dele sob a ótica um pouco do querer e outro pouco [ou então muito] do pensar. A menina que sempre ri chora a sua perda e a vizinha aumenta o som quando a Maria da Graça canta aquela canção lindíssima do Lupicínio, noites durmo cama sentir explicar quando ama calor cobertas aquece direito mundo frio braço volta, pois o corpo está acostumado.

O olho vê as coisas mais cinzas [porque a ciência diz que a tristeza dilui o contraste entre o preto e o branco e muda o modo como funcionam as células que transformam os sinais luminosos em impulsos enviados ao cérebro]. A testa franze com mais frequência, a boca diz coisas mais amargas, o ouvido escuta as notas mais agudas. As escolhas se tornam pesadas, penosas, inconsistentes, marcadas pela fragilidade daquele músculo involuntário que mora entre os pulmões e bate também no peito dos anelídeos, dos artrópodes, dos moluscos, dos cordados e dos desafinados.

Está escrito: o coração é um órgão oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo todo, um percurso que, nos seres humanos, demora cerca de 50 segundos em repouso. Durante este tempo, impulsiona sangue suficiente a uma pressão razoável para percorrer braço, boca, nariz, peito, batatas da perna, cérebro, mão, joelho, o cantinho da unha [ai], fígado, estômago, tudo, ida e volta transportando o oxigênio e os nutrientes necessários às células que sustentam as atividades do organismo.

Está implícito: o coração é um órgão cheio que sustenta ações e reações, opções e decisões, caminhos e desvios, um hábito que, nos seres humanos, dura cerca de uma vida inteira. Durante este tempo, determina escolhas, seleciona encontros, recorta sentimentos, amor, amigo, desgosto, expectativa, espera, insistências, desistências, reticências ou o que for, feliz ou nem, inesquecível ou aquele abril inteiro que era melhor apagar, chegadas e partidas alimentando o movimento que sustenta as atividades do espírito.

Daí, um pouco por causa do escrito e outro tanto por causa do implícito, o coração se dedica diariamente à árdua tarefa de cuidar da circulação do sangue e dos afetos, um dia sendo um pote até aqui de mágoa [qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água] e no outro sendo como na outra canção, aquela da propaganda [o meu eu sei porquê bate feliz; e o seu?], um dia devotado às atividades aeróbicas, pedala, corre, nada, caminha, respira, e no outro descansando de leve, como o do Milson, repaginado.

Convenhamos: é uma baita responsabilidade, mas uma obrigação bonita que a gente precisa cumprir, dentro do possível, até nos dias em que olha em volta e é isso aí.

antonia

antonia-filme Antonia é uma mulher prática, como devíamos ser todos, homens e mulheres. Sabe, por exemplo, a hora exata da própria morte. Decide e diz, sem meias palavras, o que no momento parece realmente preciso, certamente verdadeiro, supostamente urgente ou indiscutivelmente necessário. Escolhe voltar quando acha que chegou a hora, por menos bem-vinda que sinta ser [e de fato seja], e acolhe aqueles que como ela acabaram excluídos pelas convenções e pela hipocrisia: a adolescente que sofre abusos sexuais, o homem um pouco demente, o filósofo atormentado pelas marcas da guerra, a filha gay, o padre herege.

As estátuas em volta de Antonia mexem, as árvores sentem, as crianças sabem tudo o que se precisa saber. Na vida dela, alegrias e perdas se alternam, como na minha, na sua, na de quase todo mundo: faz malabares num dia e no outro mal consegue se equilibrar sobre as pernas, compra o limite inteiro do cartão de crédito num dia e no outro vende o almoço para pagar o jantar, festeja o sol, as plantas e os afetos num dia e no outro parece que tudo ficou cinza, murcho, vazio, como naqueles dias em que chove dentro da gente.

Antonia sabe o que reza o samba, que primeiro a gente nasce, depois floresce e um dia morre. Na vida dela, chegadas e partidas se alternam, como na minha, na sua, na de quase todo mundo, que cai num dia e no outro levanta, acorda com enxaqueca num dia e no outro sonha com todas as vértebras postas nos devidos lugares, o cabelo arrumado, as unhas feitas e lindos e longuíssimos cílios postiços que não precisam de retoque.

O nome do filme de 1995 já diz: Antonia é excêntrica e sua família, mais ainda. As escolhas dela desafiam o tempo, exatamente como naquela noite em que as palavras determinaram o caminho – consciente e irreversível como de certa maneira são algumas noites e boa parte das palavras. Seu mundo, quase fantástico, é feito de espíritos atormentados e demônios, mas também de afetos e comunhões, de olhares, esperança, dedicação, da dança divertidamente desajeitada que parece um pouco com a dança da própria vida.

Em “A Excêntrica Família de Antonia”, o tempo diminui a dor e embaça a memória, exatamente como nos anos que passam, um depois do outro, despedida e chegada, amor e decepção, conquista e perda, ferida e cicatriz, chove e enxuga, pensa e sente, diz, desdiz e depois desmente, porque o sentido de uma hora é a confusão da outra, a certeza de uma hora é o mistério da outra, o afeto de uma hora é a indiferença de depois.

Mesmo que às vezes pareça e ao contrário do que diz um dos personagens do filme, citando o pensador Arthur Schopenhauer, o mundo não é um inferno habitado por espíritos atormentados e demônios. Tem, é verdade, seus espíritos atormentados e seus demônios, mas tem também a canção e um olhar que transmite um amor que não cabe no corpo, tem esperança e a vontade de deixar o passado para trás, tem cor e um abraço que faz todo o resto parecer pequeno, tem a dança que dançamos conforme a música divina e as disritmias, bonitas como elas só.

feliz ano novo (ou o dia fora do tempo)

Descobri agora há pouco, ligeiramente atrasada: para a civilização maia, o ano começa amanhã. Segundo o calendário deles, o período de 13 luas ou 13 meses de 28 dias cada tem início exatamente a cada 26 de julho e termina no 24 de julho seguinte. O dia 25, hoje portanto, não pertence nem a um ano nem ao outro. O Dia Fora do Tempo é feito de 24 horas inteiramente destinadas a meditar, cancelar dívidas (reais ou metafísicas), dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo, porque nelas se concentra a energia para o período que vai começar, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que for – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Para eles (e para quem quiser), o sábio Carlos Drummond de Andrade:

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”.

18 palavras e mais umas

Tem palavras que eu gosto de graça. Canção é uma delas. Ordinária é outra, comum, habitual, repete, repete, regular, constante. Instante é boa, ao contrário de medíocre, que acho feia. Prefiro terrível, ou então ridícula, que a minha afilhada menor pronunciava ri-dí-cu-na, com N, sem ter muita ideia do que significava, do jeito mais fofo do mundo. Mundo, aliás, é outra palavra simpática, que nem coisa, que cabe em qualquer lugar e quase nunca decepciona. Espera também é boa, embora as esperas sejam em si um troço dispensável.

(Troço é também uma palavra incrível, não?).

Razão é uma palavra que eu gosto de graça, que nem canção, ordinária, planta, pepperoni, tatuagem, liberdade, chocolate, silêncio e Carlos Drummond de Andrade. Tempo é outra palavra ótima, enquanto teu é o pronome mais bonito de todos. Saudade é boa, mas é ruim. Tagarelice é divertida. Blablablá é melhor ainda.

Gosto de compreensão, da palavra e da coisa em si, a capacidade de andar junto apesar do descompasso, a percepção de que aceitar às vezes é preciso e funciona melhor que qualquer força (pena que tem gente que abusa). Força eu não gosto, mas acaso é uma palavra bonita, que quando vira real assusta ao mesmo tempo em que diverte, desordena ao mesmo tempo em que faz voltar a sorrir, escancara a necessidade de pintar a parede de cor de abóbora e encontrar outro sentido, diferente daquele.

Amigo é palavra boa e coisa melhor ainda, um olho pra ver o Rei e o Erasmo emocionados no Maracanã, um ombro para ouvir lamentos, um riso pra rir quando os lamentos terminam, dois ouvidos e uma boca pra tratar do existencialismo e das inexistências, pra cantar desafinado, pra falar a verdade e às vezes pra ficar em silêncio, pra rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder o rumo, telefonar de madrugada, celebrar o nada, fazer parte – como no poema – do mundo que a gente tremulamente constrói.

(O poeta diz que eles se tornam alicerces do encanto pela vida).

Encanto é uma palavra que eu gosto de graça, o sorriso da minha amiga diante das histórias que ouve, a capacidade que ela tem de dar um valor imenso às coisas que antes pareciam pequenas, o modo como o futebol alegra os domingos dela e os afetos preenchem as suas ausências. Vazio tem um quê de bom, por pior que seja.

Finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira e um monte de discos em volta, uma garrafa de vinho, descobrir as preferências e os desgostos e as vírgulas da vida, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

meu ideal seria escrever…

Rubem Braga
julho de 1957

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.

E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

viajar, voltar…

Alguém já disse, com toda razão, que viajar é ótimo, mas voltar é melhor ainda.

Faz bem voltar pra casa, ponte, escada, praça, parede, quarto, estante, o Retrato do Artista Quando Jovem à espera de concentração, os discos displicentes à espera das madrugadas, as madrugadas em si e os silêncios que a gente exalta, abraça, investe, porque são, de fato, ótimos investimentos. Faz bem voltar pro endereço antigo, pra família que aguenta a gente até quando nem gente aguenta, pros velhos camaradas com quem a gente senta na Lama e ri até a hora em que os olhos ou o fígado e às vezes o cérebro não podem.

Faz bem voltar pros afetos, pros botecos da Praia, pros almoços de domingo e aquele macarrão com frango à milanesa que tem na mesa desde tanto tempo que nem sei. Faz bem voltar pro samba gingando uma noite no Cais do Hidroavião e outra na esquina da São Francisco , o Zeca, o Geraldo, o Angenor, o Nelson, o João, o Noel, a Ivone, os Jorges, o Chico, o Martinho, o Adoniran e o Alfredo ensinando como a gente deve levar a vida, e como a gente deve, às vezes, deixar ela levar a gente.

Faz bem voltar pras plantas da varanda, o verde difuso delas à sombra do Mestre Álvaro, o jeito com que parecem sorrir quando acordam com o dia ensolarado, como se o mundo todo coubesse num sol, uma fila inteira delas ou então o jardim de Paris em que Hemingway e eu, em séculos diferentes, passeávamos a nós mesmos. Faz bem voltar pro pastel da feira no sábado, pras praças que a bicicleta sabe quais são, pro bom dia do vizinho e aquele açúcar emprestado que a gente nunca devolve. Faz bem voltar pro braço firme que envolve o corpo, pro modo silencioso que tem todo o encanto do mundo, pras palavras inventadas que às vezes escapam, pro movimento que às vezes escapa igual.

[Quando a gente para de brincar e mexer o coração, ao invés de bater, padece].

Até pras diferenças que parecem maior do que as possibilidades às vezes faz bem voltar, voltar pra esperança de tudo se ajeitar, pra vontade que não cabe na gente, pro desejo de estar perto toda noite, menos nos dias de futebol, pescaria e séries de TV.

Faz bem voltar pros sonhos que a gente alimenta com imaginação ou conversa, como aquele da casa na Cidade Alta que fomos ver embora nenhum de nós pudesse comprá-la, 12 quartos, 300 mil, quintalzão e varanda, azulejo antigo, biblioteca, cozinha e banda, numa manhã em que era preciso sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos no prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo.

Faz bem voltar e ver de longe, sentada no vento que bate na Ilha, os escândalos no Vaticano, o terremoto no Chile, os rumores de Genebra, a tempestade na China, o alvoroço na Argentina, o mundo inteiro, estrangeiro, distante e sedutor como o sujeito que anda como se dançasse ao som de um compasso imaginário que mistura Marvin Gaye com Cartola, The Shine of Dried Electric Leaves com a música feita nas calçadas da Havana ou nas esquinas de Porto Rico, Chet Baker com Marina de la Riva, Jorge Ben com Julieta Venegas e uma pitada a mais de malandragem.

Faz bem voltar e, na volta, decidir o que deve guardar e o que deve jogar fora, varrer, espanar, ajeitar, remexer, rodopiar, inverter, derramar Pinho Sol, água sanitária, detergente, lustra-móveis e desapego, um desapego tão bom que estende o prazo de validade da própria vida. Faz bem estender o prazo de validade da própria vida, cair na estrada com o espírito de recomeçar, redefinir ou redecorar, ser estrangeiro e um pouco anônimo, estar longe de qualquer rota confortavelmente conhecida, cheirar a liberdade, a solidão, as possibilidades e as descobertas, e depois voltar.

Porque alguém já disse, com toda razão, que viajar é ótimo, mas voltar é melhor ainda.