terapia do balde

Primeiro você enche até o talo um balde com água limpa. Depois escolhe um lugar da casa que esteja sujo [sujo mesmo], varanda pros que moram na linha da poluição, cozinha pros que não lavam a louça há mais de uma semana, banheiro decorado segundo os princípios, modelos e fragrâncias das melhores rodoviárias do mundo e por aí vai. Antes você se certifica de que os objetos eletrônicos, os tecidos que encolhem, pessoas, bichos de estimação e os livros estejam a salvo. Daí espalha saponáceo líquido nas versões alöe vera, eucalipto ou outro de sua preferência, mira o cantinho entre o chão e a parede, segura na mão imaginária de Deus e vai, jogando a água do balde de uma vez com toda a força possível e mentalizando que, dali pra frente, tudo vai ser diferente.

[O bom é ser feliz e mais nada].

Você pensa que saudade, raiva, decepção e dúvida são como aquele cinza que insiste em pintar o piso, o azulejo e a parede, e de repente não mais que de repente o cinza não está mais ali. Pensa que as expectativas desfeitas são só uma vaga lembrança de um teoria mais ultrapassada que o determinismo de Woodhead ou a moda das misturas cromáticas do bege das areias vulcânicas com o ruge das maçãs do rosto europeias. Você pensa que não importa mesmo que importe e, enquanto a água vai pelo ralo e o chão volta a brilhar bonitinho, você mentaliza um rosto, uma palavra, uma promessa ou uma história inteira, respira fundo e manda eles pelo ralo, pensando que sujeira, como quase tudo na vida, é coisa que dá e passa. Dói um pouco, mas funciona que é uma beleza.

“vô, o que era isso, essa coisa de dormir?”

Aquele estranho hábito, dormir
por Moacyr Scliar

“Dormir, talvez sonhar”. Shakespeare, Hamlet. São Paulo, em uma noite do ano de 2080. Um garoto aproxima-se de seu bisavô, que já passou dos cem anos. Tem uma pergunta para fazer, uma pergunta curiosa e, ao mesmo tempo, inquieta.

– É verdade -pergunta- que quando você era criança as pessoas dormiam?

O bisavô suspira.

– Sim -responde- é verdade. Quando eu era menino, as pessoas dormiam; dormiam poucas horas, mas dormiam.

A resposta não satisfaz o garoto, que continua intrigado. Pedindo desculpas pela insistência, volta à carga:

– Mas o que era isso, essa coisa de dormir?

O ancião suspira de novo. Obviamente não sabe, não consegue, explicar algo do qual pouco se lembra, mas bisavôs têm a obrigação de educar os bisnetos, e ele ao menos tentará.

– Dormir era o seguinte: quando chegava a noite, a gente tirava a roupa, vestia uma coisa chamada pijama, e íamos para a cama. Olhávamos um pouco de televisão, que era a forma de mostrar imagens naquela época, depois desligávamos o aparelho, fechávamos os olhos e adormecíamos.

O garoto está assombrado:

– Mas o que vocês faziam quando estavam dormindo?

O ancião sorri:

– O que fazíamos? Nada. Quer dizer: fazíamos alguma coisa, sim. A gente sonhava.

Agora o garoto não entende mais nada. Sonhar? O que o bisavô queria dizer com isso? O que era sonhar? O velho tenta explicar: a gente via coisas, pessoas que não existiam.

– E era bom?

– Era. Quase sempre era. Às vezes os sonhos se transformavam em pesadelos, mas, em geral, a gente gostava de sonhar.

O garoto fica um instante em silêncio. E aí faz a inevitável pergunta, a pergunta que, para ele, é muito mais importante do que imagina:

– E se você pudesse sonhar hoje, com o que sonharia?

Eu sonharia com a época em que se podia dormir e sonhar é a resposta que de imediato ocorre ao bisavô. Mas, claro, não é o que ele diz: a última coisa que quer é parecer saudosista.

– Eu sonharia com um bisneto que não me fizesse tantas perguntas.

O garoto ri, despede-se e sai. A noite é uma criança e ele ainda tem muito o que fazer.

teoria das expectativas desfeitas

A pedidos, um texto de novembro de 2006, quando ideia ainda tinha acento e o pedaço sobre o Rogério Ceni fizesse, talvez, um pouco mais de sentido.

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Podia ser uma história sobre o amor ou o tempo ou o vazio ou os três, que em tantas histórias são como se fossem uma coisa só. Podia ser sobre ter insônia ou comprar óculos novos, sofrer com a saúde pública ou de paixão platônica, dizer toda a verdade ou a dor que não tem conserto. Podia ser sobre a sensação de que a política não serve, o tráfego aéreo não serve, os vizinhos que matam velhinhos não servem e só o Rogério Ceni salva.

Podia ser qualquer coisa, ou nenhuma. O fato é que um leitor-amigo, há algum tempo já, quer saber da Teoria das Expectativas Desfeitas, e eu de fato disse um dia que explicava dela. Faz tempo, eu sei, e é possível que ninguém além de nós dois se lembre disso, mas promessa é dívida, e eu demoro, mas pago.

A verdade é que a Teoria das Expectativas Desfeitas nem é uma teoria direito. Ao contrário dos Postulados de Newton, do Princípio de Arquimedes e das Leis do Movimento Planetário, devidamente comprovados por homens de clara vocação para os números e para a lógica do universo, a Teoria das Expectativas Desfeitas não passa de um achismo, daqueles bons e muitíssimo baratos, desenvolvido por mim, que fugi o quanto era possível das aulas de Física, numa noite de falta de sono e alguma alegria arruinada.

Ela se justifica pelo fato (triste, mas inevitável e certeiro) de que, cedo ou tarde, o amor não vinga, a flor não sobrevive, o telefone não toca, o aumento de salário não vem, a dieta não funciona e a gente chora uma dor que não se conta, existe e depois passa.

A Teoria das Expectativas Desfeitas, se fosse mesmo uma teoria, registrada, rotulada e analisada, teria sempre as mesmas causas, mas nomes diversos em culturas diferentes, e em cada lugar do mapa, imagino, seria feita de sintomas distintos – torcer o pescoço do culpado pela desilusão em comunidades mais violentas, contemplar o nada nas regiões mais remotas do Tibet ou comprar desenfreadamente nas esquinas da Aleixo Neto, dependendo da maneira como cada sociedade encarasse o fato popularmente conhecido como cair do cavalo.

O que não muda, seja num quarto repleto de livros, numa esquina de Montmartre ou no ponto exato em que Judas perdeu as botas, é que construímos laços que não necessariamente terão finais felizes, criamos esperanças de que seremos reconhecidos no trabalho quando não necessariamente seremos, acreditamos que seremos amados até o fim da vida apesar das desilusões anteriores, alimentamos a crença na evolução e na serenidade quando não necessariamente há movimento e sossego.

Freud não explica; Einstein talvez sim, porque a Teoria da Relatividade (esta sim uma teoria de verdade) determina que dois referenciais diferentes oferecem visões diferentes, e ambas perfeitamente aceitáveis, de uma mesma coisa. Em bom português, Einstein diria que dois olhares enxergam uma mesma coisa de modos completamente diversos e isso, talvez mais do que qualquer coisa, justifique os desapontamentos, as dores e as decepções que nascem quando um ama e o outro cansa, um acredita e o outro mente, um investe e o outro tira, um acalma e o outro grita.

Segundo Einstein, não há no mundo um sistema de referência capaz de medir, sozinho, todos os movimentos, porque toda medição do espaço e do tempo é subjetiva. Ele falava de Física, é verdade, não de amor, de trabalho ou de esperança; tentava interpretar a influência de sei lá o que na interação dos corpos em movimento, não nos sentimentos alheios; pensava em altura, comprimento, profundidade, espaço-tempo, forças gravitacionais e eletrodinâmica, não em vazio, riso, coração partido, alegria, rancor, afeto.

Mas dizia, entre fórmulas e outras coisas indizíveis, coisas que talvez expliquem a dor daquele tempo ou o vazio de toda a vida – ou tornem dor e vazio relativos, como são o tempo, o olhar, o espaço e um mundo inteiro de expectativas desfeitas.