os sul-africanos, os cubanos e a alegria

Nunca fui à África do Sul, então pode ser apenas uma impressão apressada e equivocada herdada das notícias e das predisposições. Mas acho bonito o modo como os sul-africanos parecem rir de tudo, dançar quase sempre, levar ao pé (literalmente) da letra, mesmo sem saber, a lição gingada do mestre Jorge Ben, que ensinou que, quando a gente para de brincar e mexer, a barba cresce, o amor desaparece e o coração, ao invés de bater, padece.

(A arte de mexer vem desde os tempos da pedra lascada).

Lembra os cubanos e o movimento deles, seu riso incontido apesar de todas as faltas, o rum e as maracas tocando mambos, rumbas, salsas e merengues até a madrugada, o vento batendo na mureta e a beleza incontida das descobertas, da simplicidade e da igualdade, os livros espalhados pelas praças de Havana velha, o misticismo de Santa Clara, o azul e o amarelo da praia e a toda a ternura que eles, obedientes ao doutor Ernesto, não perderam.

São, pelo menos aparentemente, territórios feitos de alegria e música, embora não faltem motivos para a tristeza e o rancor, um maltratado pelo futuro político incerto, pelas ausências materiais e pela saudade do comandante, o outro marcado pela segregação racial que em tese acabou, mas não na prática, e por números assustadores: 5,7 milhões (mais de 10% da população) de africanos contaminados pelo vírus da Aids, 1,4 milhão de órgãos, 36 mil casos registrados de estupro, 27% da população desempregada, 28 mil assassinatos por ano e por aí vai.

Os dados estão num artigo sobre um episódio que talvez explique muito da postura dos africanos e que deveria, acho, ser um pouco a postura de todos nós. O autor conta que, em 2002, em Johannesburgo, perguntou a um motorista de táxi onde seu povo, tão maltratado pelo colonialismo e pelo apartheid e ainda hoje mergulhado em desigualdades, encontrava tanta alegria. O sujeito respondeu com uma frase certeira: “O sofrimento nos ensinou que a nossa alegria tem de ser só nossa, vir de dentro. Nada pode tirar nossa alegria”.

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7 comentários sobre “os sul-africanos, os cubanos e a alegria

  1. Dos sul-africanos não falo, mas os cubanos são brasileiros numa grande gaiola, a rir de alguma coisa – pois rir foi só o que lhes restou. Não é posição ideológica, mas a constatação de uma evidência que salta aos olhos quando se anda por Cuba: nós, os visitantes, flutuamos por lá com a doce certeza de que de lá sairemos pra contar estórias, histórias, causos e casos. Aos cubanos cabe esperar a próxima leva de turistas e tocar uma vida que poderia ser, em outras circunstâncias, ainda pobre – mas com o sopro de liberdade das idas e vindas que lhes foi retirado. Infelizmente, a Cuba que projetamos não existe (e talvez tenha existido numa utopia louca e libertária por não mais que cinco, seis anos). Se tenho saudades de lá? Tenho, claro – mas os rostos ansiosos, sofridos e desesperados do povo que encontrei não me provocam saudade alguma.

    Bjs.

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