francisco

Cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca-discos da sala chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto. Tinha pouca ou nenhuma ideia do que viria pela frente, dos projetos, das perspectivas, das perdas e dos amores, das palavras, dos sucessos e dos desafetos, e toda a tragédia do mundo, nos meus sete anos de idade, estava no Brejo da Cruz.

Crianças alucinadas que comiam luz, meninos desencarnados ficando azuis e coisas do tipo assombravam as minhas noites, como mulas sem cabeça ou monstros debaixo da cama, alimentavam pesadelos que eu preferia guardar em silêncio com medo de que de fato existissem, de que fossem reais como o pneu furado da última semana e não mais frases e acordes de sétimas e sustenidos.

De qualquer maneira, agradeço profundamente por minha mãe limpar os móveis, arrumar as estantes e fazer o almoço ouvindo aquelas canções, porque certamente plantou ali, e talvez nem saiba, o amor pela música que alimento dia e noite, no riso e no violão das insônias, nas Bachianas, em Todo Sentimento, em Como Dois e Dois e 20 Anos Blue, no Elis e Tom, em For no One e em Ella, nas novidades e nas relíquias – e mais ainda naquela noite, quando vi ao vivo Chico Buarque pela terceira vez na vida.

Ele subiu ao palco quase pontualmente, com aquele seu jeito desconcertado de existir e, não fossem os garçons que passavam de um lado para o outro, a noite teria sido perfeita – eu, aliás, não entendo a lógica do público destes tempos, um entra-e-sai desenfreado, um pede-e-paga-mais-tarde frenético, um atende-o-celular-só-um-pouquinho-pode-falar que banaliza a arte, desrespeita o artista e irrita o vizinho.

Fora isso, houve canções na medida certa, vinho tinto e conversa em dia, lembranças de 99 e 87, saudades de antes e ausência daquela hora; houve Imagina, João e Maria e Sem Compromisso no bis, houve Porque Era Ela, Porque Era Eu, aquela da menina saindo do mar e A História de Lily Braun, o homem dos sonhos dela aparecendo no dancing, e aqueles olhos de comer fotografia…

[Eu disse xis]

Meus medos eram já outros, não parar direito, não sonhar direito, não criar direito, não ouvir direito, não fazer o que deve ser feito, ser ausente, reticente, inconsequente ou displicente, ter apego, descrença ou dor nas costas, excesso de peso ou falta de perspectiva. O “Brejo da Cruz” não passava da canção dois daquele disco de capa vermelha – que, por mania ou precaução, ainda hoje eu prefiro pular.

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7 comentários sobre “francisco

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